Entenda porque esta é uma boa notícia. 

Depois de 10 anos de formado na faculdade de psicologia e de ter trabalhado nessa última década como psicólogo clínico, vi de perto como é importante entendermos sobre o conceito de personalidade e sobre mudanças.

O conceito de personalidade

A Associação Americana de Psicologia  (APA) define a personalidade como diferenças individuais nas características dos padrões de pensamento, sentimento e comportamento; com duas áreas de estudo: entender as diferenças entre as pessoas, tais como sociabilidade ou irritabilidade e compreender como as diferentes partes de uma única pessoa se unem para formar o todo.

O que falta nesta definição inicial é ressaltar a permanência no tempo dos padrões. Em outras palavras, as características das pessoas que não mudam com o passar dos anos.

Eu mudo, mas dentro de uma permanência

A frase acima, “eu mudo, mas dentro de uma permanência” é atribuída ao filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre. A frase reúne os dois conceitos sobre os quais quero falar neste texto: personalidade (permanência) e mudança.

Apesar do otimismo que quase todos vivenciam no final do ano, é inocência pensar que a mudança de um número no calendário vai alterar a personalidade. (Nunca é demais lembrar que o calendário é uma convenção. Para os judeus, estamos no ano 5776. Para os budistas, no ano 2557 e para os chineses, no ano 4713).

É claro que o sentimento de querer mudar talvez traga algum tipo de mudança. Mas, para além do otimismo e do pessimismo, e passadas as festas de final de ano – ou o começo do carnaval, que para alguns marca o início do novo ano – é fundamental, portanto, saber que haverá muita coisa que não mudará.

Personalidade X Mudança

Por um lado, é evidente que, desde que nascemos, passamos por diversas e profundadas modificações. Todas estas transformações são estudadas na psicologia do desenvolvimento. Por outro, desde cedo é possível perceber certos padrões de comportamento. Por exemplo, cerca de 15% das crianças são introvertidas, com pouca ou nenhuma modificação posterior na atitude.

Outro dado que vai contra uma esperança excessiva em uma transformação total é que as evidências científicas apontam que as intervenções em transtornos mentais (fármacos, psicoterapia, mindfulness, exercícios físicos) tem impacto de baixo a moderado. Ou seja, as estatísticas, com grupos-controle e toda a estruturação que o meio científico exige, apontam que de 30 a 50% das pessoas realmente se beneficiam das intervenções.

É curioso notar que o famoso psicólogo Carl Gustav Jung, em sua autobiografia Memórias, Sonhos e Reflexões, disse que, em sua autoavaliação, pensava que tinha curado 30% de seus pacientes.

Por que é uma boa notícia

Colocando dessa forma, pode parecer pessimista: teríamos uma personalidade mais ou menos estável, mais ou menos permanente, teríamos uma chance baixa ou moderada de melhora…

Contudo, tudo isso é uma boa notícia porque a partir desse conhecimento pode vir aceitação e, com a aceitação, uma visão mais acurada sobre o que é preciso mudar.

Aceitação e mudança

A ideia de mudar toda a vida, mudar o jeito de ser, completamente, fazer uma mudança radical não se sustenta no longo prazo. Sabemos que mesmo depois de uma profunda análise pessoal ou da vivência de um evento extremamente marcante ou após uma conversão religiosa (autêntica) … uma pessoa raivosa terá ataques de raiva, uma pessoa preguiçosa continuará exibindo preguiça aqui e ali, etc.

Razão pela qual a ideia de mudar todos os padrões de pensamento, sentimento e comportamento é ilusória e realmente inocente. Pior do que isso é o fato de que, ao não se sustentar no longo prazo, haverá frustração. (Por esse e outros motivos, o Conselho Federal de Psicologia não permite que o profissional faça previsão taxativa de resultados).

Mas voltando à boa notícia: é evidente que existe mudança. A frase do Sartre nos aponta que sim, existe mudança, mas essa mudança é circunscrita, é uma mudança dentro de uma permanência.

Tipos de mudança

Didaticamente, dividimos as mudanças em dois tipos:

  • Mudanças comportamentais
  • Mudanças no ambiente

Na vida real, e não na teoria, comportamento e ambiente coexistem. Para ficar mais fácil, dividimos para explicar.

Em geral, a nossa cultura enfatiza muito a mudança de pensamento. Se mudarmos a nossa maneira de pensar, vamos mudar a nossa vida. Faz sentido. Mas não é uma verdade total. A nossa cultura também descreve que fazemos ou deixamos de fazer algo porque estávamos nos sentindo dessa ou daquela forma. “Não fui trabalhar porque não tive vontade”.

Como diz uma música, “eu não tenho que pensar, eu tenho que fazer”. Por isso, afirmar que a mudança no pensamento é uma mudança completa é uma meia-verdade. Eu posso pensar o quanto quiser que vou escrever esse texto, mas se não escrever, não terei escrito. (Óbvio! O que quero dizer é que pensar não muda a minha realidade. E se eu só tivesse pensado, esse texto não teria chegado até você).

Dizendo de um outro modo:

Em muitos momentos, se queremos mudar, temos que parar de pensar, temos que parar de colocar as causas nos sentimentos e fazer. Se você não está se sentindo motivado para fazer o que tem que fazer, ao começar a fazer, começará a se sentir mais motivado…

No que tange às mudanças no ambiente, é simples. Se você se distrai com a TV e com a internet e quer estudar, vá até um ambiente em que não tenha acesso nem à TV nem à internet, como um quarto no qual você não esteja perto desses acessos ou à biblioteca. Quer aprender uma nova língua, vá até uma sala de aula algumas vezes por semana (ou mude para um país que fale o idioma desejado). Se você quer dormir, experimente apagar todas as luzes. Se quer acordar mais cedo, coloque o despertador – ou celular – longe da cama para que seja obrigado a levantar. E assim por diante.

Faça pequenas modificações no seu ambiente, frequente outros ambientes, e as mudanças começarão a ocorrer e você não precisará pensar em mudar quem você é.

Conclusão

Para concluir, gostaria de dizer que existem diversas teorias, científicas ou não, para explicar o que é, como é e como surgiu a personalidade (o que não muda em nós): temos a genética, teorias diversas da psicologia, astrologia, as antigas ideias da medicina baseada nos temperamentos… além de muitas outras.

Como pessoas curiosas, podemos estudar tudo isso. Mas saber todas estas teorias vai nos dar apenas mais pensamentos.

O central é perceber que muitas coisas em você não vão mudar no próximo ano, nos próximos anos, talvez a vida toda. Lutar contra isso só vai trazer frustração e descontentamento. Aceite quem você é e, se quiser mudar, foque no aqui e no agora, no ambiente que você tem a sua frente e no que você pode de fato fazer.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913