Teria C. G. Jung tido uma influência indireta na criação do AA?

Olá amigos!

Durante a graduação em psicologia eu fiz um trabalho sobre o álcool e o alcoolismo que considero muito bom até hoje (apesar de que, evidentemente, faria diferente agora – depois de 10 anos!). Neste trabalho, veja aqui, aprendi que a dependência química é uma condição que envolve diversos aspectos: há a questão genética, bioquímica, há a influência social e ambiental e há os fatores da personalidade individual.

A recuperação de um dependente químico, após um tratamento, apresenta uma taxa de cerca de 30% de sucesso, ou seja, os outros 70% tendem a recair no vício depois de um tempo. Um dos métodos mais eficazes é o do AA, Alcóolicos Anônimos.

Na década de 1930, Jung teve como paciente Roland Hazard, um importante banqueiro e senador, cujo principal problema era a dependência química do álcool, da qual saía e voltava com certa frequência. Em 1934, Jung avaliou que a saída para o vício seria uma profunda transformação da personalidade, que incluía passar por uma experiência espiritual mais profunda e que tocasse o seu ser.

Com isso, Hazard começou a ir em um movimento religioso chamado Grupo de Oxford, no qual conheceu Bill Wilson e Dr. Bob Smith, que são os co-fundadores do AA.

Na carta abaixo, vemos Jung escrevendo a Bill Wilson, mencionando também a análise feita com Hazard. A carta está em inglês e foi traduzida abaixo:

Carta de Jung ao fundador do AA

jung_letter

30 de Janeiro de 1961.

Caro, Sr. W.,

A sua carta foi-me realmente bem-vinda.

Não tive mais notícias de Roland H. e muitas vezes desejei saber o seu destino. O diálogo que mantivemos, ele e eu, e que ele muito fielmente lhe transmitiu, teve um aspecto que ele mesmo desconheceu. A razão pela qual não pude dizer-lhe tudo foi que naquela época eu tinha de ser cuidadoso com tudo o que dizia. Eu havia descoberto que estava sendo de todas as maneiras mal interpretado.

Portanto, tive de ser muito cuidadoso ao conversar com Roland H. Mas o que eu realmente concluí de seu caso foi o resultado de minhas inúmeras experiências com casos semelhantes ao dele. Sua fixação ao álcool era o equivalente, num grau inferior, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade expressa em linguagem medieva, pela união com Deus (5). Como poderia alguém, naqueles dias, expor tal pensamento sem ser mal interpretado? O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela aconteça para você na realidade , e ela só poderá lhe acontecer se você procurar um caminho que o leve a uma compreensão mais alta. E você poderá ser conduzido a esta meta pela ação da graça, pela convivência pessoal honesta com os amigos ou por meio de uma educação mais elevada da mente, para além dos limites do mero racionalismo.

Vi pela sua carta que Roland H. escolheu pela segunda opção, que nas suas circunstâncias era, sem dúvida, a melhor.

Estou firmemente convencido de que o princípio do mal que prevalece no mundo conduz às necessidades espirituais, que, quando negadas, levam à perdição se ele não é contrabalanceado por uma experiência religiosa ou pelas barreiras protetoras das comunidade humana. Um homem comum, desligado dos planos superiores, isolado de sua comunidade, não pode resistir aos poderes do mal, muito propriamente chamado de Demônio. Mas o uso de tais palavras nos leva a enganos; por isso, temos de nos manter afastados delas, tanto quanto possível.

Eis as razões pelas quais não pude dar a Roland H. plena e suficiente explicação. Estou arriscando-me a dá-la a você por ter concluído, pela sua carta decente e honesta, que você já adquiriu uma visão superior do problema do alcoolismo, bem acima dos lugares comuns que via de regra, ouvem-se sobre ele.

Veja você que “álcohol” em latim significa “espírito”; no entanto, usamos a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos.

A receita então é “spiritus” contra “spiritum”.

Agradecendo-lhe novamente por sua amável carta, eu me reafirmo,

Seu sinceramente, C. G. JUNG

Comentário sobre a carta

Algumas palavras precisam ser ditas para explicar melhor o conteúdo da carta. Em uma sociedade como a nossa, no qual o consumo de álcool não só é tolerado como incentivado por propagandas, pode parecer sem propósito falar de alcoolismo.

Por isso, devemos conhecer e reconhecer a existência de dois tipos básicos de alcóolatras:

– o que bebe todos os dias e, portanto, depende da bebida;

– o que bebe em grandes quantidades, mas aos finais de semana (por exemplo). São os heavy drinkers, os que bebem “pesado”, mas não todos os dias.

A chave para entender o alcoolismo é a noção de dependência. Quando uma pessoa depende de algo, é dependente. Ou seja, sem a substância se sentirá mal e pensará que precisa dela. Nesse sentido que podemos entender a frase de Jung na carta: “Sua fixação ao álcool era o equivalente, num grau inferior, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade expressa em linguagem medieva, pela união com Deus”. Em outras palavras, a necessidade de tomar o álcool (que em latim é spiritus) visa a preencher uma falta, um vazio. É uma busca, ainda que tortuosa, de uma saída.

É fácil de visualizar isso. Por exemplo, em filmes – e na realidade! – vemos como quando surge um certo problema, a pessoa sai para beber e “desafogar as mágoas”. Se isso acontecer uma vez a cada década, até que não é uma dificuldade grande. Porém, quando acontece todos os finais de semana, ou diariamente, é sinal de que as coisas não vão bem. Porque, logicamente, beber não vai fazer com que os problemas desapareçam como mágica, certo?

Após a bebedeira, o problema continua para ser resolvido, com uma provável ressaca e menos dinheiro. A saída apontada por Jung é:

“O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela aconteça para você na realidade, e ela só poderá lhe acontecer se você procurar um caminho que o leve a uma compreensão mais alta. E você poderá ser conduzido a esta meta pela ação da graça, pela convivência pessoal honesta com os amigos ou por meio de uma educação mais elevada da mente, para além dos limites do mero racionalismo”.

A experiência ao qual Jung se refere é uma experiência que chamamos comumente de religiosa. E a palavra religião, nos dois sentidos etimológicos, indica:

– uma prática de religação com uma realidade transcendente, ou seja, que transcende a realidade cotidiana;

– uma prática feita religiosamente, quer dizer, uma prática que se mantém ao longo do tempo. Por exemplo, rezar a Ave Maria às 18:00 horas, se ajoelhar na direção de Meca cinco vezes ao dia, fazer meditação sentada por 1 hora, enfim, uma prática que é feita com regularidade e constância.

Portanto, nestas experiências, que acontecem ao sujeito mais do que este é o seu produtor (em outras palavras, os conteúdos aparecem a partir do inconsciente) há a possibilidade de superar o vício. Mas ter a ajuda de um grupo de apoio, como a família, amigos ou uma reunião como as do AA facilita o processo. Além disso, Jung menciona a necessidade de superar os limites da razão, ou melhor, do racionalismo.

Como vemos na carta, Jung é prudente ao utilizar certas palavras (como Deus e demônio) por falar a partir de um outro lugar, que não o religioso. O que creio ser fundamental é a compreensão da ideia de contrabalancear. Na própria palavra contrabalancear notamos a ideia de equilíbrio. Se você está de pé e balança o seu corpo muito para a esquerda, terá que contrabalancear para a direita, senão cairá.

Com as situações negativas que encontramos na vida, temos que criar ou encontrar uma forma de equilibrar as coisas, sob o risco de cairmos feio. Nos círculos do AA, se fala muito em “fundo do poço” como o momento no qual a pessoa perde tudo. É o pior momento, por um lado, mas pelo efeito da enantiodromia (tendência à transformação no oposto) o fundo do poço é também o melhor momento, porque é o momento a partir do qual tudo muda.

E sobre a influência indireta de Jung no modo de funcionamento do AA, não há consenso. Mas em muitas das práticas utilizadas pelos grupos, vemos algumas que correspondem às orientações de Jung a Hazard.

Dúvidas, sugestões, comentários, por favor, escreva abaixo!

Referência

Instituto Recuperação

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), formado há 14 anos, Mestre (UFSJ) e Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness, Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma Sessão Online via Skype, Terapia Cognitivo Comportamental, Problemas de Relacionamentos, Orientação Profissional e Coaching de Carreira , fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! e Instagram! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913