Olá amigos!

O texto de hoje surgiu a partir da pergunta do nosso querido leitor Pedro Felipe. Em um comentário, ele me propos a seguinte questão – “Queria saber se o curso de psicologia é de esquerda ou de direita? se tem uma vertente marxista ou é um curso mais neutro politicamente”.

Esta é uma pergunta bastante interessante. Assim como a pergunta sobre a relação entre psicologia e religião (Psicologia e Deus), poderíamos escrever livros e mais livros para falar sobre todos os aspectos. Como o nosso propósito no site é de escrever textos relativamente curtos, mas completos na medida do possível, vamos considerar que o texto é uma breve introdução sobre o problema da política (e da ética) com a psicologia, ok?

Definição de política e de ética

Devemos começar definindo o que é política e o que é ética. As duas palavras são gregas. Embora também possamos nos alongar na discussão filosófica sobre o que é cada uma delas, é suficiente para nós aqui definir da seguinte forma:

A ética é a área do saber que lida com o seguinte problema: “O que é melhor eu fazer?”

Ou seja, o que é válido? O que é inválido? O que é bom? O que é mal? Em suma, “O que é melhor eu fazer nesta situação em particular?

Política, por sua vez, é uma área do saber próxima da ética. Política vem do grego pólis, que significa cidade. Polis + ética = política. Quer dizer, resumidamente, devemos definir a política como a ética que não é singular, como a ética que envolve a pergunta sobre o que é melhor fazer em sociedade.

Por exemplo, eu posso me questionar se é melhor eu casar ou comprar um bicicleta. A pergunta então será ética porque envolve apenas e tão somente a vida individual de um sujeito. Agora, se o questionamento sobre o que é melhor for mais geral e envolver a sociedade, estaremos falando de uma pergunta política, por exemplo, se eu parar e pensar sobre o que é melhor um cidadão fazer em sua comunidade:

– “É melhor para a sociedade se todos tiverem porte de arma?”

– “É melhor para a sociedade ter faculdades públicas (como no Brasil) ou apenas faculdades particulares (como nos EUA)?”

Como podemos notar claramente, as duas últimas perguntas são perguntas políticas pois envolvem não um sujeito, mas sim toda a sociedade. Sendo a política a ética na polis, estaremos enfrentando uma pergunta política.

Evidentemente, em muitos e muitos casos, existe uma imbricação e a dúvida que leva ao pensamento do que é melhor pode ser, ao mesmo tempo, ética e política.

A relação entre ciência e ética

Antes de entrarmos na relação entre política e psicologia, é útil falarmos sobre a diferença que passou a existir entre conhecimento verdadeiro (ciência) e questionamentos sobre o melhor a fazer ou deixar de fazer (ética). A ciência se preocupa com a verdade.

Por exemplo, é verdade que a água evapora a 100 graus? É verdadeira a famosa terceira lei de Newton que diz: “As forças atuam sempre em pares, para toda força de ação, existe uma força de reação?”

É verdade que podemos prever com certa margem de segurança, a probabilidade de uma praia estar cheia de banhistas pela temperatura?

Enfim, são perguntas que visam buscar conhecimentos sobre o que é verdade. Não estamos misturando perguntas estéticas, ou seja, tanto faz se a água tem uma aparência boa, se o corpo empurrado para frente com uma força F é lindo ou feio ou se os banhistas são atraentes ou não. (As perguntas sobre beleza estão no campo da estética). E quando estamos fazendo perguntas que visam o conhecimento (ciência) não estamos também misturando perguntas sobre o que é melhor.

Não pensamos se é melhor a água evaporar a tal grau ou se o corpo é mais adequado para um corpo empurrado para frente ir para a direita ou para a esquerda ou se teriam sido melhor para os banhistas terem ficado em casa.

Para resumir, gosto do exemplo de um dos professores da minha faculdade:

Cientistas descobriram que refrigerante provoca celulite (ciência).

Você, tendo este conhecimento, vai querer ou não tomar refrigerante, ou seja, o que você vai responder para a pergunta (ética) – “É melhor ou não é melhor eu tomar este copo de refrigerante?”

Portanto, são dois tipos de questionamento diferentes. São tipos de perguntas diferentes que exigem tipos de resposta diferentes.

É claro que temos que pensar sobre os limites éticos para a ciência, mas, ao fazer ciência (seja ela física, química, psicologia), nós estamos deixando de lado questões éticas – que são em certo sentido intermináveis – e procurando certezas sobre as coisas.

A psicologia é de esquerda ou de direita?

E, finalmente, chegamos na pergunta do Pedro Felipe. Com o que foi falado acima, teremos a indicação desde já que a psicologia – como ciência que estuda os comportamentos, pensamentos e sentimentos – estará em busca de conhecimentos, estará em busca da verdade.

Nesse sentido, é indiferente para a psicologia a ética (se é melhor ou pior ir à praia em um dia de chuva), pois o tipo de questionamento é outro. A pergunta é: qual é a probabilidade de emissão de um comportamento em uma dada circunstância?

Mas, ainda assim, temos que considerar que a psicologia não é uma ciência univoca. Como existe a física de Newton e a física de Einstein, na psicologia nós também encontrarmos modelos distintos e que foram sendo construídos ao longo dos anos. Estes modelos – ou paradigmas – nem sempre concordam entre si.

Então, para responder se a psicologia é de direita ou de esquerda, temos primeiro que responder sobre qual psicologia estamos falando.

E aqui a situação se complica bastante, porque cada linha da psicologia – melhor dizendo, cada autor importante – terá um pressuposto ético. Embora nem sempre este pressuposto tenha importância imediata em suas pesquisas, pela separação ciência e ética, tais pressupostos ou horizontes de perspectiva (Gadamer) estabelecem um centramento das questões.

Por exemplo, a psicologia comportamental de Skinner procura ser o mais isenta possível na elaboração de seus princípios. Fala do comportamento reflexo, operante, modelação e etc mas silencia sobre a ética. Existem exceções, como é o caso do livro Walden Two. 

Outros autores como Freud, que, embora seja psicanalista influenciou em muito a psicologia, normalmente não se manifestavam muito sobre política. Este teria sido um dos motivos da sua discordância com Reich, um genial e promissor psicanalista que saiu do movimento psicanalítico por defender o marxismo.

Na psicologia social e comunitária, a política é um tema que dificilmente fica de fora do assunto da abordagem. Por exemplo, os grupos operativos de Pichon Riviere falam de temas centrais para todo e qualquer grupo como estilo de liderança, bodes-expiatórios (o outro que tem que se perseguir ou rechaçar) e assim por diante.

Conclusão

É importante notar que, profissionalmente falando, no dia a dia da profissão do psicólogo, a ética e a política estão sempre presentes. O conhecimento adquirido nos laboratórios e experiências da psicologia é um. A prática sempre traz problemas que são éticos e políticos.

Por isso, nós temos o Código de Ética Profissional para lidar com tais questões que podem ser complicadas. Por exemplo, o sigilo do consultório pode ser quebrado?

No consultório, o paciente está sempre trazendo suas questões éticas para tratar:

– “É melhor fazer esta ou aquela faculdade?” (Orientação Profissional)

– “É melhor continuar este relacionamento ou separar?” (Terapia Individual ou de casal).

– “É preciso retirar a criança de uma escola na qual não se adaptou?” (Psicopedagogia ou psicologia escolar).

São apenas algumas questões para mostrar que as questões éticas – e políticas quase sempre – aparecem no dia a dia do profissional.

E, deste modo, temos que pensar que a psicologia não é de direita nem de esquerda, politicamente falando. Alguns autores, como Reich (marxista), defendiam abertamente seus pressupostos políticos. Outros não falam disso e vão direto ao conhecimento científico.

E, de igual forma, o profissional pode defender uma ou outra posição política – ou não defender nenhuma. Isto certamente não o impedirá de agir com ética, tendo sempre o intuito de ajudar a melhorar a sociedade em que vivemos.

No caso da faculdade em si, a resposta também será a mesma. Cada professor terá o seu ponto de vista e, embora possamos ver com bastante frequência posicionamentos que são mais de esquerda (não só na psicologia mas nas ciências humanas em geral), também existem professores que são de direita. Portanto, variará de professor para professor e de faculdade para faculdade.

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Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Vídeos e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade). E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - (12) 3042-0336 - Whatsapp (35) 99167-3191 - Snapchat: psicologiamsn