Olá amigos!

Quando publiquei o texto “Não se leve tão a sério“, mencionei a meditação vipassana e recebi diversos emails pedindo mais detalhes do que é e de como fazer.  Neste texto, portanto, vou explicar melhor para vocês do que se trata.

O que é vipassana?

A palavra Vipassanā ou vipaśyanā significa “insight”, ver as coisas como elas realmente são. Esta definição pode parecer vaga, em princípio, mas ela advém da verdade que não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas através dos nossos pensamentos, sentimentos, sensações, condicionamentos, cultura, linguagem e outros fatores, ainda.

Esta ausência de percepção das coisas como elas são varia de pessoa para pessoa, mas podemos dizer que todos nós somos um pouco cegos para a realidade. Se pensarmos em dificuldades específicas como medo ou ansiedade, veremos logo a inconsistência entre a vivência interna e a realidade externa.

Por exemplo, uma pessoa pode ter medo de aranha. Só o fato de ter uma aranha por perto ou pensar em uma aranha ou ver na televisão, já desperta uma série de sensações que, no fundo, são irreais. O mesmo acontece com a ansiedade. A grosso modo, a ansiedade é a incapacidade de viver no momento presente. A mente fica o tempo todo “ansiosa” pelo futuro, pelo que deve acontecer, pelo que não deveria acontecer ou esperando com incômodo a chegada de um evento, como quando estamos para viajar e não conseguimos dormir na véspera.

Estes são exemplos simples e até banais de situações nas quais sofremos à toa. Todo o sofrimento é inútil, pois todo sofrimento é ignorância (avydia), todo sofrimento é ausência de insight.

A meditação vipassana foi ensinada por Sidartha Gautama, mais conhecido como Buda. Embora tenhamos uma visão de que o Buda foi um deus e tinha poderes sobrenaturais como a habilidade de ver vidas passadas, ler pensamentos ou profundos conhecimentos sobre a vida, devemos lembrar que existem diferentes linhas do budismo, assim como temos diferentes desdobramentos dentro do cristianismo (cristianismo ortodoxo, catolicismo romano, protestantismo luterano, calvinista, pentecostal, etc).

Falo aqui do budismo pois a meditação vipassana adveio dos ensinamentos do Buda. Gostaria de salientar, porém, três aspectos:

– A psicologia como ciência do comportamento e da alma (pensamentos, sentimentos e sensações), em suas várias abordagens, se interessa também pelas manifestações religiosas. Assim, existe uma área dentro da psicologia chamada psicologia da religião. Não confundir com psicologia religiosa, ou seja, uma psicologia que seja ligada a uma fé, como psicologia cristã.

Com isto, podemos estudar os comportamentos religiosos e observar as mudanças psíquicas que surgem em decorrência de uma ou outra prática. É com este intuito que escrevo este texto. Ou seja, a meditação vipassana é uma técnica que traz centenas de efeitos (comprovados inclusive em pesquisas laboratoriais da neurociência), como maior concentração, tranquilidade, paz, atenção, etc.

– Segundo, a meditação vipassana é simples no seu procedimento e prescinde da necessidade de crer no Buda ou no budismo. Vocês compreenderão melhor quando comentar mais abaixo sobre como fazer a meditação.

– Terceiro, o budismo é muito peculiar. Em certo sentido, podemos compreender o budismo não como uma religião. Claro, tudo vai depender do que entendemos pelo conceito de religião.

Etimologicamente, temos duas acepções importantes:

1) Religião como religare: é o conceito mais famoso. Foi elaborado por Santo Agostinho. Religião é religação (religare) do homem com Deus.

2) Religião como relegere: é o conceito mais antigo. Foi elaborado por Cícero. Religião é a observação cuidadosa de certas práticas, como ritos, preces, em síntese, o cultivo constante, disciplinado de atividades ligadas à transcendência. Relegere, em latim, significa ajuntar de novo, recolher, retomar, no sentido de enlear de novo o fio desenrolado de um novelo. Assim como percorrer de novo um caminho já feito, ler, ponderar, repassar cuidadosamente um texto já lido.

Em outras palavras, enquanto a concepção de Santo Agostinho é interior, a ideia de Cícero descreve melhor os comportamentos que podem ser observados externamente, como ir à Igreja, fazer orações, Yogas, jejuns, penitências, promessas, etc.

Muitos consideram o budismo como uma não religião porque não há o aspecto de religação com um Deus único (monoteísmo) ou com vários deuses (politeísmo). Além disso, o próprio Buda é considerado um homem que, por seus próprios esforços, conseguiu atingir o estado de ausência total de sofrimentos, o Nirvana, que quer dizer, literalmente, não-grilhão, não-acorrentamento, não-apego. Deste modo, o budismo não seria uma religião porque o praticante não está se ligando a um Deus, ele não está se ligando nem ao Buda. Aliás, o significado da palavra Buda é apenas “O Desperto”, o que está acordado.

Evidentemente, existem diferentes tipos de budismo como o budismo theravada, o budismo tibetano, o zen-budismo. Com a disseminação dos conhecimentos deixados por Gautama na Índia, China, Birmânia, Tailândia, Japão, etc, cada local foi incorporando os seus ensinamentos com práticas locais. O budismo tibetano possui características mais próximas do que chamaríamos aqui de uma religião como rodas de orações, o pensamento de que o Buda é um ser divino, um líder religioso (o Dalai Lama).

O zen-budismo, por sua vez, é menos parecido com o que chamaríamos de uma religião, embora também tenha ganhado sua coloração local com o xintoísmo. Monges zen como Dogen recomendavam apenas a meditação sentada, que é, justamente a meditação vipassana.

Independentemente das ramificações do budismo, a meditação vipassana pode ser praticada por todos que queiram se conhecer melhor ou por aqueles que visam ter mais paz, tranquilidade, equilíbrio emocional, concentração, atenção.

Como fazer a meditação vipassana?

Sente-se confortavelmente, com a coluna ereta. Feche os olhos. Coloque toda a sua atenção na inspiração e na expiração, mantendo a concentração no nariz e observando a entrada e a saída de ar. Duração: uma hora.

Detalhes: muitos instrutores recomendam que se faça a posição de Lótus, outros dizem que a posição de Lótus, em si, não é importante. Com isso, podemos fazer a meditação em uma cadeira, por exemplo. Também existe certa controvérsia quanto a fazer com os olhos totalmente fechados ou com os olhos semicerrados.

Bem, para quem está começando, é recomendável fazer com os olhos fechados porque a visão diminui a atenção nas inspirações e expirações. A questão de ser na posição de Lótus ou não pode ser solucionada do seguinte modo: se você consegue fazer a posição de Lótus melhor, se não consegue, sente-se confortavelmente (sempre com a coluna ereta) e faça assim mesmo.

Certos mestres zen-budistas recomendam que iniciantes contem as inspirações e expirações até 10 e voltem, depois à contagem, iniciando pelo 1. Ficaria assim:

Inspiração 1

Expiração 2

Inspiração 3

Expiração 4

Inspiração 5

Expiração 6

Inspiração 7

Expiração 8

Inspiração 9

Expiração 10

E aqui, voltamos ao início.

A contagem ajuda a manter a atenção. Porém, se você consegue fazer desde já sem a contagem, também é melhor. Recomendações importantes:

Se durante a meditação, surgir uma sensação, diga é uma sensação e volte a atenção para a respiração.

Se durante a meditação, surgir uma emoção, diga é uma emoção e volte a atenção para a respiração.

Se durante a meditação, surgir um pensamento, diga é um pensamento e volte a atenção para a respiração.

Consequências da meditação vipassana

Cada pessoa sentirá os efeitos da meditação de um jeito. Mas penso que todas as pessoas que começam, percebem como a mente não pára. A mente é como um macaco que fica pulando de galho em galho, de sensação para sensação, de sentimento para sentimento, de pensamento para pensamento. É comum notarmos dias em que é mais fácil fazer, quando a mente está mais calma e dias em que é praticamente impossível (ainda assim devemos perseverar e continuar até o fim).

Para mim, o que foi mais incrível nestes anos fazendo meditação foi a capacidade de ficar em silêncio. Pode parecer algo bobo, mas é muito difícil ficar em silêncio e ter a capacidade de ouvir, ver, tocar, cheirar, degustar com a mente em total silêncio. Conseguindo controlar melhor os vittris, os turbilhões mentais, conseguimos uma série de benefícios como maior atenção, produtividade, calma, capacidade de ouvir as outras pessoas (de verdade) e assim por diante.

Outras pessoas relatam que quando começaram a fazer meditação começaram a se conhecer. A entender todo o fluxo de pensamentos e sentimentos e passaram a considerar a meditação o ponto mais alto dos seus dias, já que, naquela hora, estavam se dedicando de verdade ao autoconhecimento. Importante: o autoconhecimento aqui não quer dizer autoanálise. Não significa a interpretação dos sentimentos e pensamentos, mas a habilidade de reconhecer o seu surgimento, manutenção e desaparecimento. Ou seja, os pensamentos e sentimentos são impermanentes e, por isso, somos livres para lhes dar – ou não – atenção.

Outro relato relevante é a respeito do discernimento entre dor e sofrimento. Por exemplo, sentir dor na coluna ou outra dor é, até certo ponto, inevitável. A dor é um reflexo de uma situação de alerta do corpo. Porém, o sofrimento é opcional, ou seja, ao sentirmos uma dor, nós duplicamos a sensação negativa com o sofrimento mental, lamentando e amaldiçoando, ficando com raiva ou mágoa. O sofrimento surge dos pensamentos sobre a dor. Mudando os pensamentos, podemos eliminar o sofrimento, embora eliminar totalmente a dor talvez não seja possível todas as vezes.

Bem, as consequências são sempre positivas. No mínimo, ouvimos de pessoas que fizeram por um tempo, que estavam fazendo antes de dormir e a prática tinha acabado totalmente com a insônia. Como disse, cada um sentirá um ou mais efeitos. E, pelo que já vi em mim, nas pessoas que conheço ou descrições de quem faz ao redor do mundo, as consequências são sempre positivas.

Dúvidas, sugestões, comentários são sempre bem vindos! Comente abaixo!

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913