Como o atendimento pode ajudar e o que vou investigar em meu pós-doutorado na Unesp
A psicoterapia para adultos com altas habilidades ou superdotação pode ajudar a pessoa a compreender a própria história e a lidar com o sofrimento emocional. Também pode ajudar a construir relações e escolhas mais satisfatórias. As altas habilidades não são um transtorno nem tornam a terapia obrigatória. Quando existe uma demanda clínica, porém, reconhecer essa dimensão da pessoa pode ser importante para compreender o que ela vive.
Além de escrever aqui, atendo como psicólogo clínico, online, pelo Google Meet.
Saiba maisÉ esse encontro entre altas habilidades e cuidado psicológico que vou investigar em meu pós-doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru, iniciado em novembro de 2026.
Nos próximos dois anos, desenvolverei o projeto Psicoterapia e altas habilidades ou superdotação na vida adulta: experiências de pacientes e de psicólogos clínicos, sob supervisão da professora Carina Alexandra Rondini. Neste texto, apresento questões que podem surgir no atendimento e explico como a pesquisa pretende contribuir para a prática clínica.
Adultos com altas habilidades precisam de terapia?
Não necessariamente. Altas habilidades ou superdotação não são, por si mesmas, uma condição psicopatológica (Arantes-Brero, 2024). A superdotação também não permite presumir maior sofrimento psicológico. Uma metanálise comparou pessoas superdotadas e não superdotadas e não encontrou diferença estatisticamente significativa nos níveis de ansiedade e de depressão. Os resultados variaram bastante entre os estudos, o que pede cautela na interpretação (Duplenne et al., 2024).
Entre as questões que podem aparecer quando esses adultos procuram ajuda estão identidade, sensação de ser diferente, perfeccionismo, intensidade emocional e busca de sentido. Um estudo qualitativo recente ouviu adultos identificados como superdotados ainda na escola, que haviam procurado aconselhamento psicológico por questões como ansiedade, depressão, perfeccionismo ou hipersensibilidade. Entre os temas que surgiram, estava a necessidade de um atendimento que tratasse da queixa apresentada e também reconhecesse a superdotação (Busbee; Remley, 2026). O estudo ajuda a compreender essas experiências, mas não mostra com que frequência elas ocorrem entre todos os adultos com altas habilidades.
Como a psicoterapia pode ajudar adultos com altas habilidades?
O trabalho começa pela demanda de cada pessoa. Para alguns adultos, a questão central é compreender uma identificação recente e rever experiências da infância, da escola ou do trabalho. Para outros, são os relacionamentos, a autocobrança, as escolhas profissionais ou dificuldades emocionais que motivam a procura.
Reconhecer as altas habilidades pode ampliar a compreensão dessas experiências, mas não significa explicar tudo por elas. O psicólogo precisa considerar a história de vida, o contexto atual, os recursos da pessoa e a possível presença de outras condições.
Ao longo da psicoterapia, podem ser trabalhados o autoconhecimento, a relação com as próprias emoções, a flexibilidade diante de expectativas e cobranças, os vínculos e a construção de uma vida coerente com os próprios valores. Os objetivos são definidos com cada paciente.
Como compreender as dificuldades sem reduzir a pessoa a um diagnóstico
Na minha experiência clínica e de supervisão, tenho encontrado lacunas no conhecimento dos profissionais sobre o tema. A literatura descreve experiências que alguns adultos com altas habilidades relatam na clínica e que podem ser mal compreendidas, entre elas:
- Intensidade emocional, que pode ser lida apenas como ansiedade;
- Multipotencialidade, isto é, interesse e facilidade em muitas áreas, que pode ser lida como falta de foco;
- Perfeccionismo, que pode ser tratado só como rigidez, sem considerar o contexto em que se formou;
- Sentimento de inadequação, a sensação persistente de não se encaixar.
Essas experiências não são universais nem servem como critério de identificação. Quando o profissional desconhece esses aspectos, porém, isso pode favorecer leituras patologizantes e diagnósticos equivocados. Também pode contribuir para que as altas habilidades passem despercebidas (Beljan et al., 2006; Silverman, 2013).
Pessoas com altas habilidades também podem apresentar ansiedade, depressão ou outras condições que precisam de avaliação e cuidado. Já a dupla excepcionalidade é a coexistência das altas habilidades com outra condição, como o transtorno do espectro autista, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, a dislexia ou a discalculia. Compreender como as características individuais, a história de vida e possíveis condições clínicas se relacionam é uma das tarefas mais delicadas do psicólogo.
Parte da dificuldade começa na graduação. Uma análise das grades curriculares de 34 cursos de Psicologia bem avaliados no Brasil mostrou que a educação especial ocupa pouco espaço na formação. Nessa análise, as altas habilidades parecem ser o tema menos contemplado (Nakano, 2020).
Há ainda o peso das imagens sociais. O superdotado costuma ser imaginado como alguém bem-sucedido, emocionalmente estável e autossuficiente. Essa imagem pode encobrir dificuldades reais e afastar essas pessoas dos serviços de saúde mental (Neumann, 2023).
Por que tantos adultos nunca foram identificados?
No Brasil, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008, reconhece as pessoas com altas habilidades ou superdotação como parte do público da educação especial. Em junho de 2026, a Lei nº 15.436 instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. A lei prevê expressamente o atendimento educacional especializado em todos os níveis de ensino, inclusive na educação superior (Brasil, 2026).
O reconhecimento legal avançou, mas a pesquisa ainda se concentra em crianças e adolescentes na escola. Fora dos espaços educacionais, as oportunidades de identificação e apoio podem se tornar mais escassas. Por isso, muitos adultos nunca foram avaliados ou só descobriram suas altas habilidades na vida adulta.
A produção científica segue a mesma tendência. Uma revisão recente reuniu artigos publicados entre 2000 e 2026 sobre altas habilidades na vida adulta. Entre os 64 artigos incluídos nessa revisão, quatro foram classificados na categoria saúde mental (Incau; Rondini, 2026).
A identificação tardia e a história que contamos sobre nós
Para quem descobre as altas habilidades na vida adulta, a identificação pode mudar a forma de olhar para a própria trajetória. Experiências antigas de incompreensão, inadequação ou diferença ganham outro sentido. Pesquisas brasileiras mostram como esse reconhecimento tardio leva a uma releitura da própria história (Incau, 2025; Pérez, 2008).
Para pensar esse processo, uso a teoria da identidade narrativa do filósofo Paul Ricoeur. Em linhas gerais, compreendemos quem somos por meio das histórias que contamos sobre nós. Essas histórias permanecem abertas a novas interpretações. A psicoterapia pode ser um lugar privilegiado para essa reescrita, sem reduzir a experiência a um rótulo diagnóstico.
Como escolher um psicólogo para adultos com altas habilidades?
Alguns pontos ajudam na escolha:
- Conhecimento do tema: o profissional conhece a literatura sobre altas habilidades na vida adulta e não reduz sua experiência a um perfil;
- Experiência clínica: já atendeu adultos com demandas parecidas com as suas;
- Escuta individualizada: compreende sua história sem encaixá-la em um modelo pronto;
- Transparência: está aberto a explicar como trabalha, quais são os objetivos do atendimento e como o progresso será acompanhado.
Na conversa inicial, você pode perguntar sobre a experiência do profissional com esse público e sobre como ele considera as altas habilidades no atendimento.
O que vou investigar no pós-doutorado

Quero compreender o que esses adultos encontram na psicoterapia, como os psicólogos reconhecem e trabalham suas demandas e que contribuições essas experiências podem trazer para a formação e a prática clínica.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências da Unesp, câmpus de Bauru (CAAE nº 01680826.5.0000.5398). Ela terá três etapas:
- Revisão de escopo: um mapeamento dos estudos brasileiros e internacionais sobre psicoterapia e aconselhamento de adultos com altas habilidades, com as abordagens, os métodos e as lacunas existentes;
- Preparação das entrevistas: os roteiros passam pela avaliação de especialistas e por um estudo-piloto, um pequeno conjunto de entrevistas iniciais que testa se as perguntas funcionam na prática;
- Entrevistas: conversas online, gravadas apenas em áudio, com adultos com altas habilidades que fizeram psicoterapia e com psicólogos clínicos que atenderam esse público.
Os relatos serão examinados por análise temática reflexiva, um método que busca padrões de significado no que os participantes contam.
A partir desses resultados, pretendemos formular orientações para a prática clínica e para a formação de psicólogos. Elas serão organizadas pela perspectiva da terapia baseada em processos, que olha para os processos psicológicos envolvidos no sofrimento e na mudança, em vez de partir apenas de categorias diagnósticas. A intenção é produzir orientações que possam dialogar com diferentes abordagens.
Um tema que também é pessoal
Além da experiência clínica, também fui identificado com altas habilidades na vida adulta. Essa vivência me aproxima do tema e me ajuda a compreendê-lo por dentro. Ao mesmo tempo, exige cuidado redobrado para que minha história não se sobreponha à dos participantes. Por isso, a pesquisa inclui um diário reflexivo e o acompanhamento da supervisão em todas as etapas da análise.
Agradecimentos
É muito bom voltar a fazer pesquisa em uma das melhores universidades do nosso país! Agradeço à professora Carina Rondini pela acolhida do projeto. Ela lidera o Grupo Internacional de Estudos e Pesquisas em Altas Habilidades ou Superdotação e é presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação no biênio 2025–2026. É uma alegria desenvolver este trabalho ao seu lado.
Próximos passos
As entrevistas ainda não estão abertas. Quando o recrutamento começar, publicarei aqui o convite oficial, com os critérios de participação, no texto aprovado pelo Comitê de Ética. Também vou compartilhar por aqui os resultados da revisão e as etapas da pesquisa.
Referências
ARANTES-BRERO, D. R. B. (org.). Superdotação na fase adulta: uma visão multidisciplinar para melhor compreender o perfil da pessoa superdotada. Curitiba: Juruá, 2024.
BELJAN, P. et al. Misdiagnosis and dual diagnoses of gifted children and adults: ADHD, bipolar, OCD, Asperger’s, depression, and other disorders. Gifted and Talented International, v. 21, n. 2, p. 83-86, 2006.
BRASIL. Lei nº 15.436, de 17 de junho de 2026. Institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação; cria o Cadastro Nacional de Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação; e altera a Lei nº 11.578, de 26 de novembro de 2007. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 3, 18 jun. 2026. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15436.htm.
BUSBEE, K.; REMLEY, T. P. The counseling experiences of gifted adults. Adultspan Journal, v. 25, n. 1, art. 7, 2026. DOI: https://doi.org/10.33470/2161-0029.1212.
DUPLENNE, L. et al. Anxiety and depression in gifted individuals: a systematic and meta-analytic review. Gifted Child Quarterly, v. 68, n. 1, p. 65-83, 2024.
INCAU, C. Trajetórias de uma identificação tardia: as Altas Habilidades/Superdotação em adultos do sul do Brasil. 2025. Tese (Doutorado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem) – Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2025.
INCAU, C.; RONDINI, C. A. Produção científica sobre Altas Habilidades/Superdotação na adultez: uma revisão de 2000-2026. Cadernos Cajuína, v. 11, n. 8, e3435, 2026.
NAKANO, T. de C. Grade curricular dos cursos de graduação em Psicologia: análise da formação para educação especial. Psicologia Escolar e Educacional, v. 24, e213743, 2020. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-35392020213743.
NEUMANN, P. Prefácio. In: RONDINI, C. A.; PEDRO, K. M. (org.). Altas habilidades/superdotação no contexto clínico. Curitiba: CRV, 2023. p. 15-18.
PÉREZ, S. G. P. B. Ser ou não ser, eis a questão: o processo de construção da identidade da pessoa com altas habilidades/superdotação adulta. 2008. Tese (Doutorado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008.
SILVERMAN, L. K. Giftedness 101. New York: Springer Publishing Company, 2013.
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