Você já teve a sensação de ter vivido uma situação antes? Veja a explicação da psicanálise.

Olá amigos!

Nesta semana concluímos mais um Curso em vídeo. Foi muito bom ter tido a oportunidade de estudar com calma e detalhadamente o Psicopatologia da Vida Cotidiana. Durante a faculdade, infelizmente, não temos tempo de ler tudo de tudo e este era um livro que não tinha lido do começo ao fim. E no final, o capítulo mais teórico (digamos assim), tem por título: Determinismo, Crença no Acaso e Superstição – Alguns pontos de vista. Freud explica então alguns de seus pressupostos:

– Todos os fenômenos dentro da psique são determinados, ou seja, desde que investiguemos, encontraremos a causa das associações.

– Os fenômenos externos, por outro lado, são uma mistura de outras causas e acasos. Melhor dizendo, o que acontece fora de nós não necessariamente vai significar alguma coisa.

Por exemplo, Freud escreve:

“O romano que desistia de um empreendimento importante ao ver uma revoada de pássaros agourentos tinha razão, portanto, em termos relativos; seu comportamento era compatível com suas premissas. Mas quando renunciava ao empreendimento por ter tropeçado na soleira de sua porta (“un Romain retournerait”), era também, num sentido absoluto, superior a nós, descrentes; era um melhor conhecedor de alma do que nos empenhamos em ser. É que esse tropeço deve ter-lhe revelado a existência de uma dúvida, de uma corrente contrária agindo em seu interior, cuja força, no momento da execução, poderia reduzir a força de sua intenção. De fato só se tem certeza do êxito completo quando todas as forças anímicas unem-se na luta pela meta desejada” (FREUD, 262).

Este é exemplo é bastante instrutivo: o que aconteceu fora – os pássaros agourentos – não significam nada de verdade sobre o próprio sujeito. É como acreditar que passar embaixo de uma escada ou encontrar um gato preto dá azar. Mas quando há o tropeço antes da realização de uma ação relevante, o tropeço, que nada mais é do que um ato falho, pode ter um significado real. Há uma intenção consciente e uma contra-intenção ou uma intenção inconsciente.

Em outro trecho, Freud explica a diferença entre a psicanálise e a superstição:

“Portanto, diferencio-me de uma pessoa supersticiosa pelo seguinte:

Não creio que um acontecimento de cuja ocorrência minha vida anímica não tenha participado possa ensinar-me algo oculto sobre a forma futura da realidade; acredito, porém, que uma manifestação inintencional de minha própria atividade anímica de fato revele alguma coisa oculta, muito embora seja algo que só pertence a minha vida anímica [não à realidade externa]; creio no acaso (real) externo, sem dúvida, mas não em casualidades (psíquicas) internas” (FREUD, p. 260).

E é nesta mesma linha de pensamento que há a explicação sobre o déjà vu. Para quem talvez nunca tenha ouvido falar, um déjà vu é a sensação de que já vivenciamos uma cena, um momento antes do momento em que está sendo vivenciado ou enquanto está sendo vivenciado, mas sem saber ao certo aonde, como e quando vivemos a situação. Está presente na impressão de já ter estado em um lugar como uma casa ou uma cidade, sem que realmente se tenha pisado ali.

Déjà vu é uma expressão francesa e significa já visto. Como explicar este tipo de fenômeno? Quem passou por isso certamente gostaria de saber o porquê.

Neste último capítulo do Psicopatologia da vida cotidiana, encontramos duas explicações, embora elas sejam compatíveis entre si. Vejamos:

1) O Déjà vu como uma fantasia inconsciente

Apesar de um pouco longo, gostaria de citar integralmente o texto do Freud, com um exemplo que demonstra o seu ponto de vista.

“Uma dama que conta agora trinta e sete anos afirmou ter a mais nítida lembrança de, aos doze anos e meio, ter visitado pela primeira vez algumas colegas de escola no campo e, ao entrar no jardim, ter experimentado a sensação imediata de já haver estado ali antes. Essa sensação se repetiu quando ela entrou nos aposentos da casa, a tal ponto que acreditou saber de antemão qual seria o cômodo seguinte, que vista se teria dele etc. Mas a possibilidade de que esse sentimento de familiaridade devesse sua origem a uma visita anterior à casa e ao jardim, talvez na primeira infância, foi absolutamente excluída e refutada pelas indagações que ela fez a seus pais.

A dama que fez esse relato não estava em busca de nenhuma explicação psicológica, mas via a ocorrência desse sentimento como uma indicação profética da importância que essas mesmas amigas adquiririam mais tarde para sua vida emocional. Entretanto, o exame das circunstâncias em que o fenômeno ocorreu nela mostra-nos o caminho para uma outra concepção.

Na época em que fez essa visita, ela sabia que as meninas tinham um único irmão, que estava gravemente enfermo. Durante a visita, de fato chegou a vê-lo, achou-o com uma aparência muito ruim e disse a si mesma que ele logo morreria. Ora, o próprio irmão dela estivera perigosamente enfermo, com difteria, alguns meses antes; durante sua doença, ela fora afastada da casa dos pais por várias semanas, indo morar com um parente. Ela acreditava que o irmão a havia acompanhado nessa visita ao campo; achava inclusive que essa fora a primeira viagem mais longa dele depois da doença; mas sua memória era estranhamente imprecisa nesses pontos, ao passo que de todos os outros detalhes, em especial do vestido que estava usando naquele dia, ela guardava uma imagem ultraclara.

Para o conhecedor, não haverá dificuldade em concluir desses indícios que, naquela época, a expectativa de que o irmão morresse desempenhara um papel importante nos pensamentos da menina e nunca se tornara consciente, ou então, após o desfecho favorável da doença, sucumbira a um enérgico recalcamento. Se as coisas tivessem terminado de outra maneira, ela teria precisado usar um vestido diferente, ou seja, um traje de luto. Ela encontrou uma situação análoga na casa das amigas, cujo único irmão corria perigo de morte iminente, o que na verdade sucedeu pouco depois.

Ela deveria ter-se lembrado conscientemente de que ela própria atravessara essa situação poucos meses antes: em vez de se lembrar – o que foi impedido pelo recalque -, transferiu sua sensação de recordar algo para o ambiente que a cercava, o jardim e a casa, e caiu presa da “fausse reconnaissance” de já ter visto tudo aquilo antes, tal como se mostrava. Pelo fato de ter ocorrido o recalcamento podemos concluir que sua expectativa anterior da morte do irmão não estivera muito afastada do caráter de uma fantasia desejante.

Nesse caso, ela teria ficado como filha única. Em sua neurose posterior, ela sofria com a mais extrema intensidade a angústia de perder os pais, por trás da qual, como de costume, a análise pôde revelar um desejo inconsciente com o mesmo conteúdo” (FREUD, p. 267-268)

Portanto, temos a seguinte explicação:

“Dito em termos sucintos, a sensação do “déjà vu” corresponde à recordação de uma fantasia inconsciente” (FREUD, p. 267).

2) O Déjà vu como um sonho anterior

A segunda explicação consiste em que o Déjà vu é, na verdade, o já sonhado, ou seja, diferentemente da explicação anterior, em que o Déjà vu é uma fantasia diurna. Entretanto, a origem – de dia ou de noite – não implica em uma diferença significativa, pois o conteúdo é inconsciente em ambos os casos.

O Dr. Ferenczi é citado por Freud:

“Num de meus pacientes aconteceu algo aparentemente diferente, mas, na realidade, inteiramente análogo. Esse sentimento retornava nele com muita freqüência, mas mostrava regularmente ter-se originado de um fragmento esquecido (recalcado) de um sonho da noite anterior. Portanto, parece que o ‘déjà vu‘ não só pode derivar-se dos sonhos diurnos, como também dos sonhos noturnos.” (FREUD, p. 269).

Conclusão

A explicação da psicanálise sobre o Déjà Vu é de que o conteúdo que é sentido pela consciência é um conteúdo inconsciente que, em outro momento, passou pela consciência em um sonho ou em uma fantasia diurna. Devido ao recalcamento, o conteúdo não está mais disponível à consciência, exceto quando acontece.

Dúvidas, sugestões, comentários, por favor, escreva abaixo!

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A Psicopatologia da vida cotidiana

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913