Olá amigos!

Certa vez li em um livro que a humanidade cria basicamente através de duas formas: através de seus órgãos genitais (dá origem e cria filhos) e através de sua mente com seus pensamentos. Talvez fosse preciso acrescentar que criamos através do que sentimos, falamos ou fazemos, mas não é necessário. No fundo, antes ou durante o sentir, falar ou fazer está ali um pensamento.

Todas as línguas possuem a sua riqueza. Com o alemão de Jung, Freud, Adler, Reich aprendi que devemos compreender que existem dois tipos de realidade:

1) Reälitat: a realidade compartilhada ou realidade física; o que podemos ver, sentir, tocar, cheirar, degustar e ouvir e que os outros também podem se estiverem presentes;

2) Wirklichkeit: a realidade mental ou realidade que atua. Se eu imaginar um elefante branco agora… e ficar em silêncio, quem por ventura estiver ao meu lado não vai ver um elefante branco. Mas para todos os efeitos, o elefante branco atuará sobre o meu estado psíquico.

Para uma pessoa que tem medo de adoecer, imaginar micróbios nos objetos (ainda que eles talvez não existam de fato), faz com que ela sinta ansiedade e medo de ficar doente. Assim, ela lava a mão mil vezes, embora ela possa estar em um ambiente limpo. Ou seja, esta imagem mental, este pensamento atuará sobre o seu estado psíquico, gerando o sofrimento do sintoma obsessivo como uma compensação.

Quando digo no título do texto de que devemos ter cuidado com o que desejamos porque pode se tornar realidade, não estou indo na linha de livros como O Segredo porque o que você deseja pode não se tornar realidade no primeiro sentido, da realidade compartilhada com os demais, mas certamente terá efeitos na realidade mental (o segundo sentido, Wirklichkeit).

O exemplo do ciúme

O exemplo do ciúme é bastante interessante para entendermos como um desejo, mal direcionado, pode ter efeitos nas duas realidades. Em princípio, entendemos que o ciúme vem do desejo de estar próximo, de ficar e continuar junto, de exclusividade. Talvez haja o elemento do medo de perder.

De toda forma, a pessoa ciumenta começa a imaginar o seu parceiro ou parceiro com outro ou outra. Estas imaginações, muitas vezes extremamente vívidas, já são sofrimento. Se analisarmos bem, veremos que ao imaginar com todos os detalhes uma traição, a pessoa está tornando real o seu desejo. Real no sentido da realidade mental, como se a imagem se transformasse em um fato.

Evidente que pensar em algo não o tornará realidade na realidade física ou compartilhada. Assim como pensar no elefante branco não torna ele real para as outras pessoas, pensar em uma traição não torna a traição um acontecimento externo.

Porém, por ser desde o princípio um desejo mal direcionado, um sofrimento, o ciúme gera sim uma realidade externa. A pessoa ciumenta começa a emitir uma série de comportamentos:

– trata o seu companheiro ou companheira mal;

– inventa estratégias para controlar o comportamento alheio;

– discute, briga, argumenta, investiga

– e etc;

No final das contas, o objetivo é fazer parar algo que não existe no mundo externo e sim no interno. Para parar os pensamentos de ciúme, ações objetivas não ajudam. Não adianta rodar o mundo para provar que o elefante branco não existe, não é mesmo?

A pessoa ciumenta faz isso. Procura encontrar indícios de que está certa até que finalmente encontra, normalmente, o fim do relacionamento em consequências de seus comportamentos ciumentos.

O futuro criado pelo passado

Voltando ao começo, nos dois tipos básicos de criação, nós realmente conseguimos criar o futuro pelo sexo e pela mente. Ao criarmos filhos para o mundo estamos dando possibilidades ao futuro. E ao criarmos pensamentos ou alimentá-los também estamos criando o nosso futuro e daqueles que estão ao nosso redor.

“Se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo”, diz Henry Ford. Se você pensa que não pode, está alimentando a ideia de que não pode. Primeiro você cria esta realidade mental (Wirklichkeit) e depois a vivencia na realidade “real” (Reälitat). Se você pensa que pode, o processo é idêntico. Primeiro na mente, depois (ou ao mesmo tempo) no mundo.

Cuidado com o que você deseja, porque se tornará realidade de um ou outro jeito.

Pense em uma pessoa preocupada porque tem que pagar uma conta alta no próximo dia 20. Se hoje for dia 01, talvez ela fique 19 dias preocupando-se. Talvez no dia 20 ela consiga um trabalho ou serviço e consiga pagar. Mas durante 19 dias ela vivenciou em uma realidade (mental) que não ia conseguir pagar e, consequentemente, viveu a dor, o sofrimento, a vergonha, o desespero.

Não é que ela desejasse sofrer por 19 dias por uma preocupação. O seu desejo era pagar. Porém, ao criar o desejo, logo em seguida ela começou a pensar pela via do medo. “E se eu não tiver dinheiro?” Assim, este único pensamento, repetido, lhe gerou centenas de preocupações e um sofrimento de 19 dias.

O que fazer para mudar?

Para mudar uma realidade externa, nós temos que agir. Se a lâmpada queimou, temos que trocá-la. Se o gás acabou, temos que ligar para a empresa de gás. Mas e como lidar com a realidade, interna e individual, que – se quisermos – os outros não podem ver?

O primeiro passo é perceber o processo. Estar preocupado ou estar ansioso ou estar com ciúmes. O segundo passo é escolher algo que funcione para acabar com o processo. Mas que funcione de verdade.

Na psicologia nós temos centenas de técnicas para lidar com este tipo de problema – uma criação mental desagradável. Uma técnica bastante interessante é a da intenção paradoxal.

A intenção paradoxal para Viktor Frankl

Viktor Frankl, o criador da logoterapia, explica o que entende por intenção paradoxal:

“A logoterapia baseia a sua técnica denominada “intenção paradoxal” no fato duplo de que o medo produz aquilo de que temos medo e de que a intenção excessiva impossibilita o que o desejamos. Em alemão, descrevi a técnica de intenção paradoxal já em 1939. Nesta abordagem, o paciente que sofre de fobia é convidado a intencionar precisamente aquilo que teme, mesmo que apenas por um momento” (Frankl, 1997, p. 108).

Outra definição dada por ele é:

“A intenção paradoxal, enquanto técnica, tem por fim encorajar o paciente a fazer ou desejar que aconteçam as coisas mesmas que ele teme” (Frankl, 2011, p. 128).

Evidentemente que o conceito é bastante complexo – e só deve ser utilizado por um profissional experiente para certos casos – mas há nesta ideia algo muito interessante. Se eu penso em um elefante branco e logo começo a pensar que eu não posso pensar no elefante branco, eu terei que pensar no elefante branco para deixar de pensar no elefante branco, certo?

O mesmo se dá quando pedimos para alguém dizer um número que não seja 1, 2 ou 3. E, em seguida, orientamos para que a pessoa não pense nem por um segundo em 1, 2 ou 3. Acontece que, para dizer um outro número, ela tem que pensar no 1, 2 ou 3 pelo menos uma vez.

Com a intenção paradoxal, não tentamos não pensar no que não queremos não pensar. Tentamos pensar mais e nos concentramos no pensamento indesejado. Como a nossa concentração não é das melhores, logo vemos que é só um pensamento e de que um pensamento é transitório e dá lugar ao outro.

Como disse, esta técnica não é uma panaceia. Contudo é um exemplo de técnica muito interessante da psicologia do sentido, a logoterapia, para lidar com as criações mentais.

Conclusão

Os antigos diziam que nós tínhamos 3 corpos: o corpo que os outros veem, a alma e o espírito. Embora seja uma questão teológica bastante complicada entender a diferença entre alma e espírito (varia de tradição para tradição), podemos ver nesta metáfora que é como se vivêssemos realmente em pelo menos dois mundos:

– o mundo da realidade física, compartilhada e sentida com os demais seres;

– o mundo dos pensamentos, a realidade mental, que é uma experiência individual e intransferível.

É claro que, filosoficamente, é criticável esta divisão. Mas em termos didáticos é bastante elucidativa. Por exemplo, alguém acorda em um dia de sol azul, com temperatura amena, com os passarinhos cantando. Esta é a realidade que os outros também conseguem ver. Agora, se a sua realidade interna estará como um inferno ou como um céu, será particular. O futuro será gerado por esta realidade, mas não só o futuro, o presente também.

Referências Bibliográficas

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: Um psicólogo no campo de concentração. 2. ed. São Leopoldo: Editora Sinodal; Petrópolis: Editora Vozes, 1997.

FRANKL, Viktor. A Vontade de Sentido. Fundamentos e aplicações da logoterapia. Editora Paulus, São Paulo, 2011.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), formado há 14 anos, Mestre (UFSJ) e Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness, Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma Sessão Online via Skype, Problemas de Relacionamentos ou Orientação Profissional e Coaching de Carreira , fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! e Instagram! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913