Você já teve um sonho – ou um pesadelo – no qual você sabia que estava dormindo? Ter a consciência de que é um sonho é o que define um sonho como lúcido e o difere dos sonhos comuns. Veja a explicação da psicologia e das neurociências.

O que é um sonho lúcido?

Olá amigos!

Quase todos os estudantes de psicologia tem contato, uma hora ou outra, com a filosofia de Descartes e aprendem o famoso dizer: “Penso, logo existo” (cogito, ergo sum). Os estudantes mais dedicados vão ler os livros O Discurso do Método e As Meditações. O primeiro é mais fácil que o segundo e é, na verdade, um livro que praticamente qualquer estudante pode ler sem dificuldades – ao contrário de outros livros áridos da filosofia.

No Discurso do Método, Descartes propõe um método para a elaboração de conhecimentos seguros. E, para tanto, começa pela dúvida. Mas não é qualquer dúvida. Ele propõe para todos realizarem o seguinte experimento: duvidem de tudo, de todas as certezas, até duvidem de que vocês tem um corpo, de que os sentidos são como são. Afinal, durante a noite sonhamos e no sonho também temos sensações que parecem reais, mas não são. O que garante que a sensação diurna, do dia-a-dia, é mais real, certa e verdadeira do que a sensação de um sonho?

Quis mencionar o começo do Discurso do Método aqui – caso você queira continuar sabendo como Descartes resolve o problema da dúvida hiperbólica, recomendo a leitura do livro – para começarmos a pensarmos juntos os chamados sonhos lúcidos com a pergunta:

– “O que difere um sonho da realidade?”

– “Como distinguir as sensações do dia-a-dia das sensações de um sonho?”

É curioso que uma das características que distinguem o sonho da vigília é o fato de que se estamos acordados, sabemos que estamos acordados. Se estamos sonhando, não sabemos que estamos sonhando. Acontece que nos sonhos lúcidos, podemos vir a saber que estamos sonhando…

Assim como o Déjà Vu, os sonhos lúcidos são uma experiência que nem todos tiveram. E até quem já teve um sonho lúcido – ou um pesadelo lúcido – descreverá vivências muito diferentes das outras pessoas que também já passaram por esta inusitada vivência. Algumas pessoas relatam que conseguem mudar as condições externas em um sonho lúcido. Por exemplo, se está de noite no sonho e a pessoa quer que fique de dia, só de pensar em ficar de dia, o sonho realiza e o dia se faz.

História do conceito de Sonhos Lúcidos

A primeira menção na literatura sobre sonhos lúcidos foi feita por Frederick van Eeden em 1911. Entre outros fenômenos de lucidez, ele descreveu os chamados pesadelos lúcidos, pesadelos nos quais o sonhador sabe que está tendo um pesadelo, tenta acordar, mas não consegue. Entretanto, segundo os pesquisadores, os sonhos lúcidos, os bons sonhos, são mais comuns do que os pesadelos lúcidos: assim, a pessoa sabe que está sonhando, gosta de estar sonhando e não tem nenhuma vontade de despertar.

Para a psicologia, os sonhos lúcidos representam um fantástico tema para pesquisas porque toca em questões sobre a consciência e sobre a identidade. Será que podemos vir a desenvolver mais a nossa consciência e teremos consciência 24 horas por dia? Se todo o sonho está na mente do sonhador, como o sonho distingue quem o sonhador é das outras pessoas do sonho? Além disso, ao ter a capacidade de distinguir o que é real do que é sonho, a pessoa provavelmente não apresentará um transtorno psicótico, na medida em que o que define um delírio é a incapacidade de diferenciar o real do irreal, a fantasia do cotidiano, o dia-a-dia do sonho.

Mas outra característica representa uma adição aos sonhos lúcidos: o sonhador frequentemente consegue realizar proezas que seriam impossíveis em sua vida comum: sonhadores lúcidos descrevem a capacidade de voar, de se deslocar no espaço com rapidez (“é só pensar em um lugar e já estamos lá”), de controlar o desenrolar dos eventos exteriores como se fosse o diretor de uma grande peça de teatro, de ficar extremamente grande como um gigante, entre outras possibilidades que seriam consideradas miraculosas se acontecessem na sua frente em uma segunda-feira.

E qual é a explicação para os sonhos Lúcidos?

A explicação para os Sonhos Lúcidos

Segundo as pesquisas das neurociências e da medicina do sonho, um sonho lúcido não é propriamente falando um sonho. Um sonho acontece, quatro a cinco vezes por noite, no estado chamado de REM (Rapid Eyes Moviment), movimento rápido dos olhos. Os sonhos lúcidos, por sua vez, não acontecem no mesmo período da noite que os sonhos usuais. Eles representam, assim, uma transição neurofisiológica do estado desperto para o estado de sonho, embora aconteça no estado de sono.

Segundo Patrick McNamara: “Nós temos agora a confirmação de que os sonhos lúcidos estão associados com a reativação da rede pré-frontal durante o estado de lucidez. Em um artigo publicado no jornal SLEEP (Dresler M, Wehrle R, Spoormaker VI, Koch SP, Holsboer F, Steiger A, Obrig H, Sämann PG, Czisch M. 2012,Neural Correlates of Dream Lucidity Obtained from Contrasting Lucid versus Non-Lucid REM Sleep: A Combined EEG/fMRI Case Study. Sleep. Jul 1;35(7):1017-20), Dresler et al, conseguiram coletar dados de neuroimagem de pelo menos um de quatro sonhadores lúcidos que eles estudaram. No momento em que o sonhador está no estado lúcido, as seguintes regiões do cérebro estão mais ativadas do que estariam no estado REM não lúcido: precuneus bilaterais, cuneus, lobos parietais, e os córtices pré-frontais e temporal-occipital”.

Deste modo, as áreas ativadas comprovariam que há uma diferença substancial entre o estado REM (o sonho comum) e o estado chamado de sonho lúcido (com a ativação das áreas supracitadas). As imagens do cérebro, assim, demonstrariam que o sonho lúcido não é um fenômeno do REM, embora possam começar no REM e possuam elementos do REM – como a paralisia muscular. Especialmente a ativação dos córtices ajudam a explicar a consciência presente nestes sonhos, ou seja, com os córtices pré-frontais e temporal-occipital ainda em funcionamento, o pensamento lógico e a consciência não encontram-se adormecidas e o sujeito consegue, portanto, saber que está sonhando.

A Psicologia dos Sonhos Lúcidos

Beverly D’Urso, tem mestrado em Psicologia Cognitiva, doutorado em Inteligência Artificial, e já foi chamada de a pessoa que mais teve sonhos lúcidos no mundo. Desde a infância, ela relata a habilidade de ter sonhos lúcidos. Por isso, ela foi sujeito experimental de diversas pesquisas realizadas por Dr. Stephen Laberge no Laboratório de Sonhos da Universidade de Stanford e criador do Lucidity Institute.

Em uma entrevista (em inglês) a Berit Brogaard, ela conta mais sobre os seus próprios sonhos lúcidos e sobre as mais recentes pesquisas da área. D’Urso define sonho lúcido do mesmo modo que definimos acima, como a capacidade de saber que é um sonho, em um sonho: “Ter um sonho lúcido é saber que você está tendo um sonho enquanto você está sonhando”.

Para ela, não se trata tanto de ter controle sobre o sonho, embora ter controle sobre o conteúdo do sonho seja um dos motivos que levam as pessoas a quererem ter um sonho lúcido. Assim, se é possível ter um sonho lúcido, muitas pessoas querem saber como provocá-lo.

D’Urso explica que a melhor técnica é prestar atenção nos detalhes: tudo o que você possa ver, ouvir, tocar, cheirar, degustar. Em um sonho, os detalhes não serão tão claros e podem haver minucias fora do lugar, portanto, ao encontrar estas “falhas” isto dará ao sonhador a pista de que está sonhando. Outra forma, conjunta a esta, é criar o hábito de estar atento, pois o seu estado mental será reproduzido no sonho, ou seja, como você é durante o dia, será durante o sonho.

Um dos objetivos das pessoas que tentam ter um sonho lúcido é justamente a realização de desejos. Segundo a pesquisadora: “No sonho, as fantasias são muito mais vivas. Existem muitas coisas que você pode fazer em um sonho lúcido e não pode no dia-a-dia. Você não pode provar o gosto do fogo ou voar até o sol ou ter relações com estranhos sem consequências potencialmente sérias. Mas você pode fazer tudo isso em seus sonhos”.

D’Urso também aponta que um dos maiores benefícios de ter sonhos lúcidos com frequência é a habilidade de se manter no momento presente, sem culpa ou ressentimentos pelo passado e sem esperanças ou expectativas de futuro para ser feliz. Como a atenção para conseguir atingir um sonho lúcido tem que se concentrar no agora, com o tempo, esta habilidade se torna permanente e a pessoa consegue viver intensamente sua vida, pois só estamos vivos neste segundo. O passado já foi. O futuro é sempre um futuro.

E, por fim, ela argumenta que não há potencial perigo em ter sonhos lúcidos e enlouquecer. Afinal, para ter sonhos lúcidos é preciso estar consciente da diferença entre o sonho e a realidade. Sem isto, a experiência não se torna possível. E se a experiência é possível, ela já exclui por definição a possibilidade de ter um delírio durante o dia e tentar fazer coisas que seriam impossível no cotidiano.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913