“O princípio de Nirvana exprime a tendência da pulsão de morte”. A tendência da pulsão de morte é a redução completa das tensões.

Olá amigos!

A psicologia da religião é a área da psicologia que estuda os fenômenos religiosos. Há uma longa tradição de estudos, especialmente na Alemanha, dentro do que ficou conhecimento como Religionswissenschaft, Ciência da Religião – que engloba, além da psicologia, a teologia, a sociologia, antropologia, filosofia da religião. É uma área, portanto, bastante complexa com diversas possibilidades de estudo. Por favor, não confundir psicologia da religião com psicologia religiosa.

De uma maneira didática, podemos dividir os estudos de psicologia da religião em duas grandes áreas:

1) Estudos sobre o fenômeno religioso (estudos da conversão religiosa, de práticas específicas como meditação, Yoga, missa, culto, etc);

2) Estudos sobre o que certos autores pensaram sobre a religião.

Este texto encaixa-se no segundo tipo, ao analisar o conceito de princípio de Nirvana, na obra de Freud.

O conceito de Nirvana

Para quem não sabe, Nirvana é um termo utilizado dentro do budismo. Nibbānaem pali e em sânscrito, निर्वाण, significa literalmente não ter grilhões, não estar preso a nada. E foi definida como o objetivo da prática de meditação, vipassana, por Sidarta Gautama, também conhecido como Buda. É considerada uma meta a ser atingida no sentido de que o nirvana consiste na liberação total do sofrimento e na aniquilação do desejo que gera o sofrimento.

Embora exista uma grande controvérsia se o budismo deva ser definido como religião ou não (dependendo do conceito de religião – um termo, por sua vez, ocidental), é fato que a palavra nirvana é utilizada prioritariamente dentro de práticas que são consideradas em geral como práticas religiosas.

Segundo Ajaan Thanissaro, o Nibbana, Nirvana deve ser entendido da seguinte forma:

“Todos sabemos o que ocorre quando um fogo se extingue. As chamas morrem e o fogo desaparece. Portanto quando pela primeira vez nos damos conta de que o objetivo da prática Budista, nibbana (nirvana), significa literalmente a extinção de um fogo, é difícil imaginar uma imagem mais mortífera para um objetivo espiritual: a completa aniquilação. Acontece que, no entanto, essa interpretação desse conceito é um erro de tradução, não tanto de palavra, mas de imagem. O que significava um fogo extinto para os Hindus na época do Buda? Tudo, menos aniquilação.

De acordo com os brâmanes da antiguidade, quando um fogo se extinguia ele passava a um estado de latência. Ao invés de deixar de existir, ele se tornava dormente e nesse estado – desatado de qualquer combustível em particular – ele se espalhava através do cosmos. Quando o Buda usou essa imagem para explicar nibbana para os brâmanes Hindus da sua época, ele contornou a questão sobre se um fogo extinto continua a existir ou não, focando ao invés disso na impossibilidade de definir um fogo que não queima: por isso a sua afirmação de que uma pessoa que está totalmente ‘extinta’ não pode ser descrita.

No entanto, ao ensinar para os seus próprios discípulos, o Buda usava nibbana mais como uma imagem de liberdade. Aparentemente, todos Hindus naquela época consideravam o fogo queimando como agitado, dependente e aprisionado, ambos, apegado e preso ao seu combustível enquanto queimava. Para acender um fogo era necessário “dominá-lo”. Quando o fogo se soltava do seu combustível, ele estava “livre”, liberto da agitação, dependência e aprisionamento – calmo e sem limitações. É por isso que as poesias em Pali repetidamente usam a imagem do fogo extinto como uma metáfora para a liberdade.

Na verdade, essa metáfora faz parte de um modelo figurativo do fogo que também envolve outros dois termos relacionados. Upadana, ou apego, também se refere ao sustento que um fogo obtém do seu combustível. Khandha significando não somente um dos cinco “agregados” (forma, sensação, percepção, formações e consciência) que definem todas as experiências condicionadas, mas também o tronco de uma árvore. Tal como o fogo se extingue quando pára de se apegar e obter o sustento da madeira, da mesma forma a mente está liberta quando pára de se apegar aos khandhas.

Portanto, a imagem que está por trás de nibbana é de liberdade. Os comentários em Pali suportam esse ponto ao rastrear a palavra nibbana até a sua raiz verbal, que significa “desatamento”. Que tipo de desatamento? Os textos descrevem dois níveis. Um é o desatamento nesta vida, simbolizado por um fogo que se apagou mas cujas brasas ainda estão quentes. Isso representa o arahant iluminado, que tem consciência de visões e sons, tem sensibilidade ao prazer e à dor, mas está livre da paixão, aversão e delusão. O segundo nível de desatamento, simbolizado por um fogo que está de tal forma extinto que as suas brasas já esfriaram, é aquilo que o arahant experimenta após esta vida. Todos os estímulos aos sentidos se esfriam e ele/ela está totalmente liberto/a até das mais sutis limitações e estresses da existência no tempo e espaço.

O Buda insiste em que esse nível não pode ser descrito, mesmo em termos de existência ou não existência, porque as palavras somente têm efeito para aquelas coisas que possuem limites. Tudo que ele realmente diz a respeito disso – exceto pelas imagens e metáforas – é que uma pessoa pode ter um conhecimento parcial dessa experiência nesta vida e que isso é a felicidade última, algo que verdadeiramente vale a pena conhecer.

Assim, da próxima vez que você observar um fogo se apagando, não veja isso como um caso de aniquilação, mas como uma lição de como a liberdade pode ser encontrada ao se soltar das coisas”.

O princípio de Nirvana, na obra de Freud

Freud utiliza o conceito de princípio de Nirvana algumas poucas vezes em suas Obras Completas. O Nirwanaprinzip, é claro, não designa que Freud tenha se tornado budista a partir de 1920, quando publica o seu livro Além do Princípio do Prazer. 

Devemos entender esta referência como advindo de sua introdução no Ocidente por Schopenhauer e, posteriormente, por Barbara Low (1877 – 1955), psicanalista inglesa e uma das fundadoras da Sociedade Britânica de Psicanálise. Low define o princípio do prazer como: “tendência para a redução, para a constância, para a supressão da tensão de excitação interna”.

Como já mencionei algumas vezes aqui no site a obra de Freud é extremamente complexa e para a estudarmos integralmente temos que nos dedicar alguns anos. Muitas pessoas conhecem tão somente os primeiros conceitos de Freud, sobre o suposto “trauma” que deixaria uma pessoa doente psiquicamente ou então sobre a influência da sexualidade na etiologia das neuroses. Na maioria das faculdades, vemos o estudo da psicanálise ficar somente até esta fase.

Além do Princípio do Prazer (Jenseits des Lustprinzips), publicado pela primeira vez em 1920, é um trabalho que o próprio Freud considerava especulativo, embora tivesse fundamentos de suas hipóteses em sua experiência clínica. A grosso modo, podemos entender que antes de 1920, Freud acreditava que a psique tendia ao prazer, ou seja, a atividade psíquica que busca evitar o desprazer e atingir o prazer. Também é um princípio econômico, na medida em que o aumento da quantidade de excitação está ligado ao desprazer e a sua diminuição consiste na redução.

Após 1920, Freud modifica esta estrutura e acrescenta a possibilidade de a psique ter o seu funcionamento além do princípio do prazer e formula o conceito de pulsão de morte (Todestriebe). Talvez por permitir-se maior especulação, Freud fala então de princípio de Nirvana. A ideia também encontra-se presente no texto O problema econômico do masoquismo: “O princípio de Nirvana exprime a tendência da pulsão de morte”. A tendência da pulsão de morte, assim, é semelhante ao princípio de Nirvana: a redução completa das tensões, a recondução do ser vivo ao estado inorgânico.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Vídeos e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade). E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - (12) 3042-0336 - Whatsapp (35) 99167-3191 - Snapchat: psicologiamsn