Segundo Jung, “Todo mundo carrega uma sombra, e quanto menos ela está incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é”. Sites e aplicativos como o Secret nos permite ver a sombra alheia e, talvez, encontrar um pouco da própria sombra nestes segredos alheios ou expressar os seus próprios. 

Olá amigos!

Há cerca de uma semana baixei o aplicativo para iOS Secret, cuja descrição diz: “Compartilhe com amigos, anonimamente”, ou seja, ao criar uma conta você adiciona automaticamente os seus amigos do facebook que já estão no sistema e, com isso, pode ver os seus segredos assim como pode postar os seus segredos – ou o que quiser – de forma anônima, sem ser identificado. Com isto, o aplicativo preenche uma demanda criada pelo próprio facebook que exige que todas as postagens sejam identificadas pelo usuário que a fez. Além disso, pela política de privacidade do face, cada perfil tem que ser o perfil de uma pessoa real. Anônimos e fakes não são permitidos e são deletados.

O que é curioso em um aplicativo como este é que muitas pessoas gostam de compartilhar os seus segredos mais íntimos, desde que não sejam rastreados. Em uma das antigas comunidades do Orkut, o Confessionário, qualquer um poderia publicar sem ser descoberto. Mas o que é ainda mais interessante do que o desejo de compartilhar os seus segredos é observar o que são estes segredos.

Nesta semana que dei algumas olhadas nos segredos publicados por amigos e amigos de amigos no Secret vi um certo padrão. Padrão este que podemos relacionar com a teoria do psicólogo suíço Carl Gustav Jung.

A psicologia dos segredos do Secret

O que vi de mais comum – seria interessante fazer uma análise estatística – nos segredos dos Secret são confissões eróticas. Imagino que cerca de 50% por cento das postagens, ou mais, apresentam alguma fantasia, desejo ou divulgação do que gosta e do que não gosta na cama. Segundo outras artigos de jornais e revistas, parece que alguns usuários inclusive compartilham fotos íntimas de antigos relacionamentos (o que é ilegal e vai evidentemente contra a política do aplicativo).

Outros gostam de falar mal de colegas e amigos, tão mal que chegou-se a cogitar a retirada do Secret no Brasil por ser um provável incitador de um suposto bullying virtual. E, por fim, existem as postagens que visam obter curtidas (no Secret para curtir é preciso apertar um coração), o que parece um paradoxo porque a pessoa quer ser bem popular mesmo sendo anônima.

A psicologia da persona e da sombra

Para entendermos a psicologia dos segredos – no Secret ou em qualquer outro lugar – devemos entender os conceitos de persona e sombra da Psicologia Analítica de C. G. Jung. De maneira sintética, podemos dizer que a persona é construída a partir do que é valorizado socialmente. Aprendemos a dizer bom dia, boa tarde, boa noite. Mas também, desde a infância, aprendemos o que é que se pode falar e fazer em público e o que não se deve falar, nem fazer (talvez nem escondido).

Assim, o que podemos falar e fazer publicamente constitui a persona. E o que não podemos falar nem fazer constitui a sombra (Schatten). A persona é a máscara, o que os outros veem em nós. Podemos ver facilmente a máscara da persona ao pensarmos no padrão de comportamento de uma carreira. Então, a pessoa comporta-se como dentista, como professor, como general, etc.

A sombra, por outro lado, é constituída de todas as tendências que ficam de fora, que jamais devem ser apresentadas. Mas não é só para os outros. Muitos dos aspectos da sombra acabam sendo tão reprimidos que são desconhecidos da própria pessoa. Com isso, uma boa parte da terapia da Psicologia Analítica vai na direção da integração da sombra, pois, quanto mais consciência uma pessoa tiver destes conteúdos excluídos, mais ela vai se conhecer e mais vai se aceitar.

A tendência é que a sombra seja projetada nas outras pessoas quando ela não é conhecida. Por isso Jung disse: “Tudo que nos irrita nos outros pode nos levar a um melhor conhecimento de nós mesmos”.  Assim para chegarmos um pouco mais perto da nossa persona, um exercício simples é observar o que nós (e o outros) estamos combatendo, lutando contra, criticando. Ou o que dizemos quando ninguém vai saber que foi nós quem dissemos – como no Secret.

Nesse sentido, a sombra explica a parte das publicações do Secret que visam criticar outra pessoa (o que foi aventado como sendo bullying virtual). O típico conteúdo erótico que aparece neste tipo de confessionário online também acaba sendo um conteúdo da sombra – mas mais consciente – na medida em que a sociedade normalmente tolhe a manifestação da sexualidade para a privacidade. Ou seja, como não é valorizado a publicação do que se gosta ou não gosta, do que se faz ou se deixa de fazer, a pessoa guarda para si, para a sua intimidade ou, desde que esteja certa de que o sigilo vai ser mantido (como no Secret ou em uma psicanálise), ela se abre e revela suas perversões, desejos e fantasias.

Conclusão

Sites e aplicativos como o Secret são interessantes porque permitem que uma série de conteúdos sejam conscientizados. Apesar dos riscos eventuais de machucar alguém ou ser machucado em uma crítica anônima, o que é publicado, o típico conteúdo secreto, acaba trazendo mais luz para a sombra.

Na Psicologia Analítica de Jung, o que se busca não é uma suposta perfeição, um ideal. Como muitas vezes Jung escreveu, o caminho da Psicologia Analítica é o da totalidade, ou seja, o que vivenciamos através da nossa persona, do nosso personagem que as outras pessoas podem ver (tanto na profissão, como na escola, na faculdade, como filho ou filha, como pai ou mãe, como vizinho, etc) é só uma parte da nossa totalidade.

Outra parte igualmente importante é o que fica de fora da persona, o que não é aceito socialmente, mas também e principalmente o que é reservado pela própria sociedade como tendo um lugar específico (como no caso da sexualidade). Assim, o Secret apresenta uma proposta curiosa, de compartilhamento social do que a própria sociedade acredita que não deveria ser compartilhado.

Para concluir, uma citação de Jung sobre a sombra:

Todo mundo carrega uma sombra, e quanto menos ela está incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é. Se uma inferioridade é consciente, sempre se tem uma oportunidade de corrigi-la. Além do mais, ela está constantemente em contato com outros interesses, de modo que está continuamente sujeita a modificações. Porém, se é reprimida e isolada da consciência, jamais é corrigida, e pode irromper subitamente em um momento de inconsciência. De qualquer modo, forma um obstáculo inconsciente, impedindo nossos mais bem-intencionado propósitos (CW 11, parágrafo 131).

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), formado há 14 anos, Mestre (UFSJ) e Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness, Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma Sessão Online via Skype, Terapia Cognitivo Comportamental, Problemas de Relacionamentos, Orientação Profissional e Coaching de Carreira , fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! e Instagram! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913