O presente texto é sobre analise do filme “Somos Marshall” com enfoque na motivação segundo psicologia do esporte. Conforme Samuski (2002, p. 104): “a motivação é caracterizada como um processo ativo, intencional e dirigido a uma meta, o qual depende da interação de fatores pessoais (intrínsecos) e ambientais (extrínsecos)”.

O filme conta a história de um time de futebol americano da universidade de Marshall localizada em Huntington no oeste de Virgínia que ao viajar de avião para Carolina do Norte acaba sofrendo uma queda e todos os passageiros mortos (jogadores, técnicos, equipe, fãs). Após o ocorrido a cidade começa o luto, e tentam começar um novo time.

O reitor Don da universidade acaba encontrando um único técnico que gostaria de fazer parte da Marshall chamado Jack, e indaga-se Jack porque querer ser técnico da Marshall, sendo que ele não tinha nenhum vinculo com o time:

– Jack, preciso saber de uma coisa. Por favor, me desculpe se pareço indiscreto. É a primeira pessoa que vim…ver e que não é muito conhecida. E desde que você me ligou, me pergunto por que, Jack… Está tranquilo aqui, e não há títulos em Marshall. Porque quer este trabalho? Digo, que em seu juízo perfeito… Seria voluntário?

[…]

– Ei, Don, você quer saber por que eu te liguei?

– Honestamente, quero.

– Não será complicado.

– Jack, eu tive quatro meses de complicações. Eu apenas preciso de honestidade.

– Quando escutei o que aconteceu, sua situação. A única coisa que podia pensar era neles, no quanto significavam para mim. Mas depois que o ouvi, encontrei uma solução. E pensei nisso. Um time, uma universidade… uma cidade, vai ser difícil seguir adiante. E acho que talvez eu possa ajudá-los. Junto com você. Acho que é algo real que temos, como eles.

É nítido observar a motivação intrínseca de Jack em comparar os filhos com os jogadores que morreram. Como existiam apenas três veteranos Jack decide buscar novos membros com o apoio do reitor Don da diretoria que até então não liberava calouros para jogar, com a liberação de que calouro poderia jogar no time eles montam o time com atletas inexperientes ou de outro esporte (basquete e beisebol) , após inicio começam os treinos.

“A motivação tem duas fontes: a extrínseca e a intrínseca. Pessoas com motivação intrínseca esforçam-se interiormente para serem competentes e autodeterminadas em sua busca de dominar a tarefa em questão O indivíduo pode possuir inúmeras competências que o habilitem à realização de tarefas, porém a motivação determinará o grau de envolvimento e, muitas vezes, a qualidade com que a tarefa será cumprida.” (SILVA; RUBIO, 2002, p.72).

Em seu primeiro jogo Marshall perde, e com desastrosos passes e falta de experiência por grande parte da equipe a torcida se entristece. Conforme Silva e Rubio (2002) a derrota pode levar o atleta a desenvolver dois tipos de condutas: ou provoca o abandono da vida competitiva ou produz um fortalecimento de atitude.

Afirma Cagigal sobre a derrota:

[…] “que das derrotas, do sentimento de inferioridade derivado delas, quando não cristalizam em frustração permanente, se produz na reorganização de forças pessoais; e aí está o princípio da superação. A derrota superada significa enriquecimento da pessoa. Em uma personalidade preparada, esta antítese desencadeia novas energias, descobre inusitadas habilidades, abre horizontes, ordena uma reestruturação de mecanismos, enriquece as diferenciações, de todo o qual sai à personalidade fortalecida.” (Cagigal apud SILVA; RUBIO, 2002, p.74).

Red e Jack vão em busca de uma nova estratégia e decidem ir no time adversário pedir informações de como fazer a jogada deles, o técnico do time adversário libera para eles ficaram na sala que contem vídeos, fotos, documentos, sobre o time, e lá Red e Jack analisam tudo.

Mesmo com a nova estratégia eles acabando perdendo o jogo, e começa uma rivalidade no time de Nate com outro jogador, Nate por ter jogado muito mesmo com o ombro machucado, não consegue ver a possibilidade de não jogar, ele é motivado pelos seus valores (a morte de toda sua equipe, a vitória em homenagem a eles).

No treino Red observa que não teriam chance contra o próximo time e diz:

– Você não conheceu Rick Tally. Eu conheci. No dia em que morreu, ele disse:

“A única coisa que as pessoas lembram, a única coisa que conta, é vencer”. Nada mais importa. O que estamos fazendo? Como estamos honrando sua memória? Nós montamos um time que não vence. Eles não podem vencer. Não nessa semana, não nessa temporada. Talvez não vençam nunca. Nós não estamos honrando-o, Jack.

No outro dia Jack reflete e diz:

Você estava certo. Certo em que? Sobre o Tally. Ganhar é tudo, e nada disse isso tantas vezes pra mim mesmo que até perdi as contas. Não interessa qual o esporte, não interessa em qual país, qualquer treinador que trabalhe direito, acredita nessas palavras. É um fato. Quando cheguei aqui, era a primeira vez na minha vida, talvez a primeira vez na história do esporte mas isso não é mais verdadeiro. Não está aqui, não mais. Red, não importa se ganhamos ou perdemos. Nem importa como jogamos, o que importa é que joguemos. Que entremos em campo, que nós estejamos lá sábado, que mantenhamos esse programa vivo. Vamos jogar. Red, estou te dizendo, um dia, não hoje, nem amanhã, nem nessa temporada provavelmente, nem na próxima, mas um dia nós vamos acordar, e seremos como qualquer outro time, de qualquer outro esporte, onde ganhar é tudo, e nada mais importa. E quando esse dia chegar… bem, é então que iremos honrá-los.

É importante frisar essa fala de Jack com Red, pois encontrou um motivo intrínseco e não extrínseco ao jogar, não tratando apenas da vitória, mas de jogar, manterem-se vivos nos jogos e futuramente eles possam se importar com vitória.

No próximo jogo quando os jogadores estão desmotivados acreditando que não haverá ninguém na arquibancada para torcer, se surpreendem pelo fato da quantidade de torcedores indo rumo ao estádio para ver o jogo.

Antes de irem ao estádio jogar os jogadores se reúnem no cemitério junto de Jack e Red. E ele faz um discurso para inspirar a motivação de seus jogadores:

Quero falar do nosso adversário desta tarde. Eles são maiores, mais rápidos, mais fortes, mais experientes, e no papel eles são melhores. E eles sabem disso. Agora quero contar uma coisa que eles não sabem: eles não conhecem os seus corações. Eu conheço. Eu já vi.

– Vocês o mostraram para mim. Mostraram à equipe de treino, aos seus colegas de time. Mostraram a vocês mesmos quem vocês são de verdade, aqui dentro. Quando entrarem naquele campo hoje, vocês tem que jogar com o coração. Com suas almas e seus pés, com cada gota de sangue que vocês tem no corpo, joguem com o coração até o último instante, e se vocês fizerem isso, se fizerem isso, nós não perderemos. Nós podemos ficar atrás no placar, no final do jogo mas se vocês jogarem assim, nós não poderemos ser derrotados. Nós viemos aqui hoje pra relembrar, seis jovens, e outros 69, que não estarão hoje no campo com vocês. Mas eles estarão olhando. E podem apostar seus rabos, que estarão torcendo em cada jogada que fizerem. Vocês me entenderam? Como vocês jogarem hoje, desse momento em diante, é como vocês serão lembrados. Esta é a sua oportunidade, de levantarem-se das cinzas e receber a glória.

– Nós somos…

– Marshall

Hoje nós vamos vencer.

Eles então vencem, e depois do jogo todos continuam ainda no gramado, sentindo a sensação da vitória.

Jack vai até Don e entrega a bola pois é como é de tradição entregar a bola pro jogador mais valioso, e Don diz que não é jogador. Jack responde: Somos Marshall, aceitamos qualquer um.

Marshall perdeu mais jogos, nos anos 70, que qualquer outro time dos Estados Unidos. Mas mesmo assim, o time continuou jogando. Em 1984, eles ganharam seu primeiro recorde de vitórias em 20 anos. Em seguida ganharam 8 títulos consecutivos, 5 campeonatos estatuais, e 2 campeonatos nacionais.

Pode-se entender a história do filme como o mito da fênix, o pássaro de fogo que morre, e renasce das cinzas, e cria-se uma nova vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

SAMULSKI, D.M. Psicologia do esporte. 1 ed. Editora Manole, 2002.

SILVA, M. L; RUBIO, K. Superação no esporte: limites individuais ou sociais? Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2003, vol. 3, nº 3 [69–76]

Psicólogo (CRP 06/119079), Especialista em Psicanálise, Pós-graduado em RH, Palestrante e Consultor de Empresas. Visite meu site - Superando Desafios