Olá amigos!

Este é um texto de reflexão a respeito das manifestações e, também, sobre o mecanismo psíquico do desejo e de sua realização.

As recentes manifestações populares começaram com o Movimento Passe Livre, que propõe uma outra forma de estruturar o transporte público. Como o próprio nome já diz, o “desejo” do Movimento é que o transporte público seja de qualidade e gratuito. Para muitos, esta reivindicação pode parecer ilusória, fantástica, utópica, mas porque não seria possível? Será que as coisas tem sempre que permanecer do jeito que estão?

Bem, embora o desejo maior do grupo seja o passe livre, nas últimas semanas eles tinham um objetivo claro: a revogação do aumento das passagens. Este é um desejo bem estabelecido, claro, definido. A passagem tem que permanecer em 3 reais.

Depois da truculência da polícia em São Paulo, muitos começaram a se unir a este desejo e o movimento cresceu rapidamente, impulsionado pelas redes sociais. No dia 20 de junho de 2013, o objetivo, o desejo de que a passagem não subisse foi atendido.

Conseguimos o que queríamos! E agora?

Assim como alguém pode passar um longo período de sua vida tendo um desejo claro, definido, como – por exemplo – ser gerente em uma empresa, ao obter o que é almejado, fica a pergunta e o vazio: e agora? O que devo fazer? Quer rumo tomar?

Primeiro, há o sentimento de felicidade, de realização, de dever cumprido. Depois, surge esta desorientação. Pois, pense bem, se a meta, se o caminho era chegar até certo ponto… o que fazer depois? Para onde caminhar? Que rumo seguir?

As manifestações nas ruas cresceram enormemente, muito mais do que os integrantes do Movimento Passe Livre sonhavam. Durante as manifestações muitos desejos foram gritados pela população. Mas eram desejos vagos como o fim da corrupção, saúde, educação, segurança melhores. Digo que são vagos porque são gerais.

Pense: Eu quero uma educação de qualidade, melhor! Tudo bem… mas o que é uma educação de qualidade, melhor?

Quando nós temos desejos vagos, genéricos, gerais não vamos conseguir obter porque no final das contas nem sabemos o que desejamos.

O fim da corrupção

Muitos tem pedido o fim da corrupção, mas não sabem como a política funciona. Imaginam que os políticos de Brasília e os de sua cidade, simplesmente vão até um cofre e pegam o dinheiro público. O desvio de verbas existe, mas a forma como a corrupção se estruturou não é exatamente através do saque aos cofres públicos. Disse que as pessoas não sabem como a política funciona porque elas não sabem nem o básico.

Durante um período, tive contato com um dos vereadores de minha cidade, porque ele tinha um projeto de montar uma Clínica de Recuperação por aqui. Então fui algumas vezes em seu gabinete e vi centenas de pessoas pedindo para ele não para votar ou aprovar leis (a função de um vereador) mas para arrumar dinheiro para ir até uma cidade próxima, arrumar cesta básica, etc. Todas as demandas, sem exceção, eram de atividades do poder executivo. Enfim…

A corrupção não funciona como as pessoas imaginam. Embora existam muitas formas, o principal se dá através do financiamento da campanha. Eleger-se vereador, prefeito, deputado, senador, etc, não é barato. Gasta-se muito com propaganda. Ora, da onde vem este dinheiro que é normalmente bem superior a todos os salários que o político vai receber durante o seu mandato?

O dinheiro vem de empresas que financiam as campanhas e, por sua vez, esperam retorno financeiro depois que o político é eleito. Este retorno é na facilidade de conseguir fechar um contrato, no superfaturamento de uma obra, em benefícios, portanto, que são concedidos para estas empresas que financiaram a campanha.

O político ganha pois foi eleito e pode ganhar comissões das empresas quando estas fecham os contratos. Por exemplo, um político é eleito com o dinheiro de uma grande construtora. Ao ser eleito ele favorece esta empresa que ganha uma licitação para construir uma ponte. A ponte custa, digamos, 10 milhões de reais. Ao invés, a empresa cobra 12 milhões. 2 milhões a mais do que a obra. E aqui aí está o dinheiro da corrupção.

Nós, que pagamos impostos, pagamos 2 milhões a mais para uma empresa (e para o político ligado a ela).

Isto acontece não só com as construtoras, mas também com as empresas de ônibus. Em minha cidade, que é uma cidade pequena de 40 mil habitantes, há uma só empresa de ônibus há anos. A passagem é 2, 10 (caríssimo para uma cidade tão pequena). E porque esta empresa não tem concorrência? Porque outras empresas não podem concorrer com ela como acontece em outras áreas? Porque não se pode ter vans?

A resposta é esta ligação entre a empresa e a prefeitura.

A minha cidade é turística, com isso uma classe que manda e desmanda na política são os hoteleiros. Outra forma de desvio do dinheiro é a isenção de impostos. Há alguns anos, um prefeito semi-analfabeto foi eleito (com o dinheiro e a influência dos hoteleiros). Ora, assim que ele assumiu decretou anistia nos impostos. Ninguém precisaria pagar os impostos em atraso. Quem ele beneficiou? Os hoteleiros que deviam milhões em IPTU. Aqui não há o desvio ou superfaturamento, há o benefício de uma classe econômica. Pergunte se o dinheiro de quem pagou os impostos foi devolvido…

Então, as pessoas pedem o fim da corrupção. Como acabar com este financiamento empresarial nas campanhas? Como mudar a política? O que é e como poderia ser feita a Reforma Política?

Como disse, gritar nas ruas pelo fim da corrupção é algo vago, vazio, sem sentido pois não há um desejo claro por um objetivo como é o da redução do preço das passagens. Como um político pode atender os anseios da população?

Ele apenas diz que vai atender, mas como o sistema não será mexido, tudo continuará como antes.

Saúde, educação e segurança melhores

Estas demandas parecem ser mais claras do que o fim da corrupção. Todo mundo sabe ou imagina o que é uma saúde melhor ou uma educação melhor.

Mas, ainda assim, pedir saúde, educação, segurança como palavra de ordem é algo muito abstrato, eu diria.

Por exemplo, na educação eu vejo que muitos avanços foram feitos, especialmente no Ensino Superior, nas Faculdades Federais. Temos um sistema de ensino muito, muito bom, mil vezes melhor do que o ensino oferecido nas Faculdades Particulares.

E o que é uma educação de qualidade?

Será que o necessário é aumentar as vagas para que o vestibular fique mais acessível e todos possam estudar, desde que tenham os conhecimentos básicos e específicos do segundo grau? Ou será que a educação de qualidade é ter a escola desde a infância (e não só na faculdade), uma escola que realmente ensine os conhecimentos do ensino fundamental e médio?

Como se pode ver, o desejo de uma educação melhor não é muito claro. É fácil dizer, mas o que significa uma educação melhor então?

Eu vi a Universidade Federal de Lavras iniciar a Faculdade de Filosofia a distância. Foram oferecidas centenas de vagas. Para o pólo de Itamonte foram oferecidas 50 vagas. O objetivo inicial era formar, aperfeiçoar o quadro de professores da região. No primeiro vestibular, apenas 1 professor se inscreveu. Sobraram 49 vagas que foram abertas não só para os professores como no começo, mas para a população em geral. As pessoas se inscreveram e entraram na faculdade, imaginando que seria fácil estudar filosofia, como se fosse só ficar viajando, divagando, pensando coisas, fazer provas fáceis e ter o diploma.

Como a Universidade Federal de Lavras é uma Universidade excelente, uma das melhores do Brasil, e o ensino era de qualidade, exigia-se muito nas provas. Resultado: menos de 10 alunos permanecem no Curso. Pior, o curso será fechado por ausência de interesse.

Talvez você possa questionar que o interesse pela faculdade de Filosofia seja menor. Mas o que eu gostaria de apontar é a abertura de centenas de vagas, o seu não preenchimento, a ideia de que a faculdade é fácil, é só colar e passar, etc. Ora, queremos uma educação de qualidade mas não queremos estudar?

Este é apenas um exemplo para mostrar como querer educação de qualidade passa por maiores elaborações.

Na questão da segurança ocorre o mesmo. Temos um total desconhecimento das leis, damos sempre o chamado jeitinho brasileiro e queremos punição severa para os bandidos (que são sempre pobres e, geralmente, negros), queremos a redução da maioridade penal como se isto fosse a solução de todos os problemas. Infelizmente, eu vejo que o buraco é muito mais embaixo.

Dando exemplo de novo de São Lourenço, minha cidade, sei que no comércio há diversos casos de funcionários que roubam seus patrões. São demitidos, nunca são punidos e agem como se isto fosse o certo.

Assim como na área da educação, é preciso refletir sobre os nossos valores, sobre moral e sobre ética.

Conclusão

Como disse no início, este é um texto de reflexão sobre os acontecimentos recentes das manifestações. O que eu posso concluir não é muito. Vejamos:

– É necessário, seja na vida pública ou na vida privada, ter objetivos, desejos que sejam claros, definidos, realizáveis. Ao invés de pensar em uma educação de qualidade, devemos pedir por mais vagas nas Universidades, mais professores na rede pública com melhores salários e condições. Ao invés de pedir por maior segurança, devemos dar uma volta ao redor de nossa própria casa e ver se nós mesmos não cometemos atos fora da lei e da ética….

– Sobre a saúde, também devemos ter pautas definidas. Ao invés do lema saúde de qualidade, faz-se necessário pensar a respeito da prevenção de doenças, do tratamento rápido e eficaz em postos de saúde e hospitais. Lembrando que a saúde não é apenas a saúde física, não é apenas o tratamento realizado por médicos (bons ou negociantes)… a saúde passa necessariamente por diversos profissionais como nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, enfermeiros, homeopatas, e demais profissionais.

Ter uma saúde de qualidade, claro, é ter atendimento rápido em um hospital, mas é também ter acesso aos medicamentos, é ter a possibilidade de fazer exames periódicos, ter uma alimentação de qualidade e por aí vai.

O objetivo do texto foi mostrar que bandeiras gerais não funcionam. Por exemplo, se eu pensar para mim mesmo que o meu desejo é ser uma pessoa boa, isto não vai servir de nada. Como posso ser uma pessoa boa para as pessoas que estão próximas de mim? Devo fazer caridade, dedicar um tempo para os outros, trazer a paz e não a discórdia na minha fala? O que mais? Temos que sempre definir ações objetivas ou apenas ficaremos pensando…

Se as pessoas tivessem pedido transporte de qualidade – e não 3 reais a passagem, para que o preço não subisse – não teriam adquirido nada. Conseguiu-se um primeiro objetivo, a redução do aumento. Pode-se agora ter outros objetivos como mais ônibus nas ruas, que as pessoas não precisem ficar em pé, para que se tenha mais alternativas como metrô, trens, vans, motos, etc.

Enfim, a ideia é ter algo concreto para obter e cobrar não um amplo desejo que não vai levar a nada.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), formado há 14 anos, Mestre (UFSJ) e Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness, Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma Sessão Online via Skype, Terapia Cognitivo Comportamental, Problemas de Relacionamentos, Orientação Profissional e Coaching de Carreira , fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! e Instagram! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913