Aristóteles se depara com um grande problema filosófico deixado por Heráclito e por Parmênides, isto é, o problema do movimento (mudança) do ser, das coisas, do ente: o ente se move, se altera ou permanece imóvel, sempre idêntico a si mesmo? Segundo Heráclito, a mudança se dá de modo constante nas coisas, pois tudo flui. Já Parmênides defende o monismo e o imobilismo do ser, de modo que este é considerado como imutável, indivisível e imóvel.

Com a finalidade de superar as teorias e os problemas acerca do movimento e do imobilismo do ser, Aristóteles formula sua perspectiva – até certo ponto, apresentada como uma síntese dos pensamentos heraclitianos e parmenídicos – atrelada à sua compreensão da realidade sensível: a existência concreta do ser deve ser garantida, mas sem que se negue o movimento encontrado na natureza.

Deste modo, a distinção com relação ao ser é realizada: o ser é o que existe em ato e também o que existe em potência – isto é, o que pode vir a ser em ato. O ser pode, pois, possuir determinadas características em um momento e outras características diversas em um momento diferente. Ademais, pode ser dito de vários modos: pode-se dizer o ser através das categorias, através do ato e potência, pela verdade e falsidade e também pelas quatro causas.

Com a finalidade de explicar o movimento que ocorre na natureza, o Estagirita utiliza-se das noções de ato e potência –  abordadas com profundidade no Livro IX da Metafísica de Aristóteles. Ambas as noções compõem nosso objeto neste trabalho, no qual são tomadas brevemente, comparadas e contrapostas por nós.

Ato e potência são apontados pelo filósofo como modos de ser divergentes e diferentes. Quando se diz que algo é em ato, diz-se que a coisa existe concretamente, existe em ato, diz-se que possui existência real.  Ao se dizer do ser enquanto potência, refere-se a algo que tem a capacidade de realizar sua existência, algo que tem a possibilidade de existir, embora não de modo necessário. Estes dois modos de ser prevalecem sobre todos os seres. O ser é tomado pelo filósofo como ato e/ou potência. É por essa concepção que se pode explicar a mudança das coisas: o pensamento de que as coisas deixam de ser ao mudarem é excluído por Aristóteles, já que, ao sofrerem as mudanças, o movimento a coisa passa de um modo de ser – potência – a outro modo de ser – ato.

Com relação ao ato e potência, o ser pode existir de três modos:

1) pode existir enquanto ato, mas não em potência;

2) pode existir enquanto ato e enquanto potência;

3) pode existir enquanto potência, embora não em ato.

Estes modos de existir trazem várias implicações, como:

1) ao existir em ato, mas não em potência, o ser existe necessariamente, de modo que não pode ser diferente do que é;

2) ao existir em ato e em potência, o ser existe necessariamente, todavia pode se tornar outra coisa com relação ao que é atualmente;

3) ao existir como potência, mas não em ato, o ser existe enquanto possibilidade e, assim, não existe de modo necessário.

Deve-se ressaltar que, segundo Aristóteles, o que existe em ato não possui dois contrários concomitantemente, enquanto o que existe em potência pode contê-los ao mesmo tempo. Neste ponto, podemos notar que Aristóteles estabelece a tese ontológica de não-contradição, a qual já havia sido apontada por Parmênides, embora ele não a houvesse sistematizado. Perscrutando um pouco mais a questão da potência comportar seu oposto, entende-se que o que tem a potência de existir, também tem a potência de não existir, como afirma Aristóteles: “Portanto, pode ocorrer que uma substância seja em potência para ser e que, todavia, não exista, e, também, que uma substância seja em potência para não ser e que, todavia, exista” (Met., IX(3), 1047 a 20-22).

A existência em ato é considerada determinada pelo Estagirita e a existência em potência é tida como indeterminada, posto que a passagem de potência à ato pode ou não ocorrer. De potência, a coisa vai em direção ao ato, pois este é o fim visado pela coisa que está em potência. Assim, o ser só pode atualizar-se com a condição de haver nele a capacidade potencial para tal ato, seja externa ou interna.

Há também outro ponto de diferenciação e oposição entre as noções de ato e de potência: o ato é concebido como princípio ativo determinante, e a potência é concebida como capacidade de realização, conforme apontou o Estagirita: “Chamo, por exemplo, construtor quem tem a capacidade construir, vidente quem tem a capacidade de ver, e visível o que pode ser visto.

O mesmo vale para tudo o mais. De modo que a noção de ato, necessariamente, precede o conceito de potência e o conhecimento do ato precede o conhecimento da potência” (Aristóteles, Metafísica, IX(8), 1049 b 20). Para o filósofo, o movimento, a alteração das coisas se dá de modo teleológico, a saber, visando um fim. O ato é considerado o fim a ser atingido pela potência. Esta, por sua vez, existe visando seu fim, o ato, sendo a finalidade e o ser que visa alcançá-la opostos e diferentes.

Bibliografia:

ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

Michelle Vaz é graduanda em Filosofia