Skinner escreveu seu fenomenal livro O Comportamento Verbal na década de 1950 (publicou em 1957), muito antes da difusão do computador pessoal, nas décadas de 80 e 90, e, evidentemente, antes da era dos smartphones e suas versões modernas de chat (chat é conversa ou bate-papo, em inglês) como Facebook e Whatsapp.

Entretanto, apesar de algumas décadas de antecedência, este seminal trabalho de Skinner nos permite analisar o funcionamento do comportamento verbal atual.

Escrever e falar

Há alguns anos, quando comecei a atuar como psicólogo online na Orientação Psicológica Online, me surpreendi com o fato de que muitos pacientes preferiam digitar a falar em um microfone ou ser visto em e ouvido através de uma webcam.

Poderíamos atribuir, no senso comum, a preferência por escrever à timidez. Em termos mais técnicos, poderíamos diferenciar entre pacientes mais introvertidos e pacientes mais extrovertidos. Entretanto, tanto o termo da psicologia analítica como a noção de timidez ou vergonha são, no máximo, apenas descritivos. Não explicam o porquê.

Antes dos smartphones, os SMS já apontavam a tendência de escrever em vez de falar. Ao menos por aqui, no Brasil, uma causa econômica tinha relevância: ligar de celular para celular era (e ainda é) caro, enquanto mandar mensagens via SMS era bem mais barato.

Porém, com o uso cada vez mais frequente da internet via mobile, o fator econômico perdeu a força de uma causa que justificasse a preferência.

Causação múltipla

No capítulo 5 do Comportamento Verbal, vemos que um único operante verbal pode estar sob controle de múltiplas causas. Mas não precisamos nos estender demasiadamente aqui nas explicações sobre a preferência de escrever e falar.

Algumas causas como ter mais tempo para responder e a possibilidade de corrigir (autoclítico) na escrita, bem como fatores idiossincráticos como não gostar da própria voz ou ter mais privacidade ao não ter o áudio aberto para um auditório maior do que o desejado são explicações provavelmente acertadas.

O vício e o reforçamento intermitente

Uma outra questão curiosa da utilização de chats como o Facebook Messenger, Whatsap, Snapchat ou outros similares é o motivo de serem tão viciantes. Na psicologia comportamental de Skinner, há frequentemente a menção ao comportamento daquele indivíduo que é viciado em jogos de azar.

O comportamento é chamado de viciante na medida em que ocorre com uma alta frequência. Outros  comportamentos, como aponta Skinner em Sobre o behaviorismo, como o do cientista que trabalha incessantemente não são taxados de vícios, embora tanto um quanto outro tenham os mesmos esquemas de reforçamento.

Esquemas de reforçamento são padrões de consequências que se sucedem ao comportamento e o fazem aumentar. Dependendo do padrão, de tempo ou de razão, o comportamento aumenta e se mantém por longos períodos.

Desta maneira, explica-se o fato do jogador compulsivo continuar jogando, ainda que perca em 99 % das vezes, ao ganhar em 1%, o reforço, neste caso intermitente (não se sabe quando ocorrerá), faz com que o comportamento se mantenha.

De igual modo, o indivíduo que fica olhando para o celular toda hora está sob um esquema de reforçamento parecido, pois ele ou ela não sabe quando haverá a consequência esperada. No caso do celular, podemos ver que, geralmente, há tanto o esquema de razão variável como de intervalo variável.

Esquemas de reforçamento

No livro Schedules of Reinforcement, Skinner define (tradução minha):

Esquemas de reforçamento intermitente de razão variável (VR – Variable-ratio), é similar à razão fixa exceto pelo fato de que o reforçamento é estipulado de acordo com uma série randômica de razões dentro de valores arbitrários.

Esquemas de reforçamento de intervalo variável (VI – Variable-interval), similar ao esquema de intervalo fixo exceto pelo fato de que o esquema é estipulado de acordo com uma série randômica de intervalos dentro de valores arbitrários.

Existem outros esquemas e eles podem ocorrer em combinações variadas, inclusive no chamado mixed, no qual o comportamento pode ser reforçado – sem alteração na estimulação prévia – por às vezes um intervalo de tempo e às vezes pela quantidade de respostas emitidas.

Trazendo para a realidade das conversas online, podemos ver isso em funcionamento quando o indivíduo olha de cinco em cinco minutos – ou menos – no celular para ver se há uma resposta e, às vezes, há e às vezes não (intervalo variável, já que pode passar um minuto ou muito mais) e quando o indivíduo repete uma resposta diversas vezes até ser reforçado como dizer oi ou olá mais de uma vez (razão variável).

Estes dois esquemas, misturados, fazem com que o comportamento fique “viciante”. O comportamento poderia ser emitido com uma frequência também alta em esquemas de reforçamento de razão ou intervalo fixo, mas a frequência seria menor. Por exemplo, quando sabemos que uma pessoa só vai entrar às 20:30, não vamos abrir o app de cinco em cinco minutos, o que ocorre quando não sabemos que horas a pessoa vai entrar (intervalo variável).

O auditório

O operante verbal textual – ou falado – nos chats também nos permite analisar o problema do auditório. Resumindo, o auditório é o ouvinte ou leitor, aquele ou aquela para quem escrevemos ou falamos. O problema do auditório pode ser resumido na seguinte questão: por que falamos o que falamos com quem falamos?

Afinal, não falamos sobre os mesmos assuntos com todo mundo – a não ser em raríssimos casos em que o controle de estímulos está deficiente. Mas, em geral, há um repertório de comportamento verbal para cada pessoa que é o nossos auditório no momento. Com uma pessoa falamos sobre música, com outra mais sobre séries, com outra mais sobre o que estamos sentindo, etc.

E, novamente, o que explica a manutenção de um assunto é o reforçamento e igualmente a discriminação de estímulos. A grosso modo, a discriminação de estímulos consiste em perceber estímulos que dão ocasião ao comportamento. Por exemplo, vemos que a pessoa X entrou no chat e a foto ou o nome faz com que diferenciemos e consigamos perceber sobre o que falar com aquela pessoa. Se não somos reforçados, tendemos a mudar de assunto até que o reforçamento ocorra. Se não ocorrer, há a extinção do comportamento, ou seja, paramos de tentar falar com aquela pessoa.

Conclusão

Neste texto, procuramos mostrar alguns aspectos da teoria de Skinner sobre o comportamento verbal tendo como exemplo o comportamento de escrever e falar nos chats mais populares no momento como Facebook e Whatsapp.

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Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913