Ao longo do processo de análise as palavras fixas ligadas ao sofrimento vão ficando mais soltas, mais livres, mais sem limites.

Olá amigos!

Uma experiência que todos (ou quase) deveriam ter é fazer análise. Fazer análise, na nossa área da psicologia, significa analisar a psique, analisar a própria alma. Na medida em que cada pessoa é de um jeito, tem a sua individualidade, não existem dicas ou técnicas que sejam válidas para todas as pessoas. Por isso, há a necessidade de se buscar, cada um a partir de si, a própria verdade. Apesar disso, existem certos padrões que não raro se repetem – afinal, se nada se repetisse ou fosse ao menos parecido não seria possível construir um conhecimento e uma direção.

A psicanálise de Freud, por exemplo, utiliza um modelo extremamente simples para que a análise: o divã, a associação livre e a transferência. No texto de hoje, gostaria de me ater somente à associação livre.

Palavras fixas

É curioso perceber a diferença entre as ciências humanas e as ciências exatas. A grosso modo, podemos entender as ciências exatas como aquelas ciências que se baseiam na matemática e na observação da natureza (especialmente da natureza “não animada”, se entendermos animada como aquilo que é tido em nossa tradição como anima ou alma, ou seja, há exclusão dos animais e plantas). Enquanto isso, as ciências humanas centram os seus estudos na humanidade e, concordando com Roland Barthes, não há como excluir a linguagem. Claro que a matemática é uma linguagem – se soubermos definir linguagem de uma maneira ampla – mas o que quero dizer é que as ciências humanas, mesmo que usem recursos da matemática, sempre estarão lidando com palavras.

E a lida será com as palavras do próprio pesquisador ou teórico e com as palavras dos sujeitos que estão sendo observados. Saindo um pouco da epistemologia e voltando para a clínica, é curioso como o começo de uma análise se esbarra sempre com palavras fixas. Lacan chamou de sintomas (que fazem referência ao significante mestre, o significante oculto que estrutura o sinto-mal). Jung chamou de complexos de tonalidade afetiva (uma palavra ou grupo de palavras carregados de afeto ou emoção).

Por exemplo, em uma sessão de supervisão, podemos resumir praticamente tudo o que foi dito pelo paciente em um tópico: pai, mãe, namorado, trabalho. Dizendo assim parece que estamos nos referindo a áreas (família, relacionamento, emprego). Porém, não é bem isso: talvez um paciente fique a sessão ou o tratamento inteiro em volta da palavra medo, ou angústia, ou indecisão ou inferioridade. Aqui estou dizendo no geral, mas tais palavras são particulares, como se cada um ligasse o seu sofrimento a um grupo de palavras idiossincráticas.

O importante a ser notado é que as palavras são fixas. O discurso, que é nada mais nada menos do que uma sequência temporal de palavras, o tempo todo retorna para um centro ou fica preso em uma palavra ou meia dúzia. Palavras fixas, fixadas, sufocadas.

Ao longo do processo de análise, espera-se, estas palavras e as outras vão ficando mais soltas, mais livres, mais sem limites. Não é a toa que o sintoma se transforme muitas vezes em riso. Em chiste, em ato falho. É o reconhecimento de que se sofre por uma palavra. E uma palavra não significa nada. Ou, no mínimo, é polissêmica.

Palavras sem fim

Não sou linguista, mas imagino que todas as palavras sejam polissêmicas, ou seja, tem vários significados. Talvez possamos encontrar uma ou outra palavra que tem apenas um sinônimo e um campo semântico bastante restrito. Mas como não falamos palavras isoladas, como todas as palavras estão incluídas em um contexto, o significado de uma palavra aparece em uma frase. E, em uma frase, podemos torcer uma palavra e dar a ela um outro sentido. Podemos criar neologismos, absurdos, erros, ambiguidades, poesias.

Enfim, um resumo bem resumido desse processo de palavras fixas para palavras sem fim seria algo como:

1) “Eu sofro por causa de X”

2) Análise… e, depois de muitas associações livres e interpretações:

3) “X não significa apenas o meu sofrimento, significa X, mas também significa Y, Z, W…e o que eu quiser…”

Na verdade, não é o que final de análise nos traga uma vida sem sofrimento. Em princípio, não há possibilidade de um fim de análise porque o discurso, a fala, a escrita não tem fim. Colocamos pontos finais por convenção mas a nossa psique não tem pontos finais. A nossa conversa interna, os nossos pensamentos, conscientes e inconscientes, continuam… e a ideia é criar mais liberdade para se pensar e dizer.

Porque realmente é muito interessante como uma análise abre um espaço infinito. É como ter uma tela em branco: você pode desenhar o que quiser. Então, porque você desenha isto e não aquilo ou qualquer outro?

Com o tempo de análise, então, se percebe isso. Não é preciso ficar o tempo todo falando (e pensando) sobre o X. X nem é tão importante assim. É, como toda palavra, um som vazio, uma imagem acústica sem significado prévio ou cujo significado é dado de novo e de novo por aquele ou aquela que fala (ou escuta).

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Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913