Para Adler, a percepção, a memória, a fantasia, a empatia e os sonhos sempre possuem uma função que é dirigida a um fim, a uma finalidade, o que chamamos de princípio teleológico. O desejo de poder, de dominar estará presente em todos os indivíduos em seu processo de adaptação ao meio social.

Olá amigos!

Continuando o nosso Curso sobre a Psicologia Individual de Adler, chegamos agora ao quarto capítulo do livro A Ciência da Natureza Humana, intitulado “O mundo em que vivemos”. Neste capítulo, Adler vai definir diversos conceitos: percepção, memória, imaginação, alucinação, delírios, fantasia, empatia, sonhos, hipnose e sugestão. E, embora sejam conceitos que poderiam ser separados por serem distintos, todos se encontram unidos em virtude da argumentação central do autor que estamos estudando. Para Adler:

1) A psique está em constante processo de adaptação com o seu meio ambiente;

2) Este processo de adaptação é necessário porque o meio ambiente se modifica e o indivíduo, a partir do momento em que começa a se mover, também está propenso a mudar de ambiente de tempos em tempos. A capacidade de se mover e de fazer (machen – em alemão) vincula-se ao seu desejo de poder (Machen – em alemão)

3) O desejo de poder, de dominar estará presente em todos os indivíduos. Alguns sentirão que podem dominar e dominarão. Outros sentirão que não podem dominar e se sentirão inferiores.

4) O meio ambiente em que os indivíduos vivem é social, ou seja, estamos sempre cercados por outras pessoas. Por este motivo, o ambiente torna-se ainda mais incerto. Por isso, o ser humano tem que fazer uso da sua percepção para observar aonde está, da sua memória para prever as consequências que podem surgir, assim como tem que fazer uso da sua faculdade de criação, de imaginação, para antever possíveis desdobramentos.

A percepção

Percebemos o mundo que nos cerca através dos cinco sentidos e, embora objetivamente possamos considerar que o ambiente possui características intrínsecas, duas pessoas vão perceber os mesmos estímulos de maneiras diversas. Isto porque, para Adler, há a predominância de um sentido sobre os demais.

Por exemplo, um músico que consegue perceber – sem ver – qual nota está sendo tocada em um piado terá a sua faculdade acústica, a percepção auditiva, muito mais apurada, enquanto outra pessoa terá a percepção visual. Segundo o autor, a pessoa visual é a mais comum. Além disso, há a pessoa que valoriza mais a faculdade de locomoção (como um esportista) e entre os outros sentidos menos comuns está a faculdade da percepção olfativa, que é justamente a mais rara quer dizer, pessoas que centram a sua percepção do mundo pelo cheiro.

E, retomando as concepções descritas na Lição anterior, Adler menciona a importância da infância para a fixidez de uma percepção como mais central e, também, como as primeiras percepções serão fundamentais para as suas crenças e atitudes para com o mundo externo: “Impressões que nos adultos perecerão sem importância ou triviais podem ser de enorme influência no espírito da criança e modelar definitivamente a sua impressão sobre o mundo em que vive” (ADLER, p. 55).

A percepção, ao contrário do que poderia parecer a princípio, não é uma estimulação passiva. O que cada um percebe vincula-se sempre com o objetivo que tem em mente – na chamada perspectiva teleológica, a perspectiva que visa a um fim: “A individualidade e a unicidade de um ser humano consiste no que ele percebe e no como ele percebe. A percepção é mais do que um simples fenômeno fisiológico; é uma função psíquica da qual podemos extrair as mais remotas conclusões referentes à vida íntima” (ADLER, p. 58).

Na continuação do texto, Adler passa a definir a memória e, assim como todas as outras funções psíquicas, a memória terá também um fim, uma finalidade, uma teleologia: “Sem memória, seria impossível tomar-se qualquer precaução em referência ao futuro. Podemos deduzir disso que todas as recordações contem em si mesmas um propósito inconsciente. Não são fenômenos fortuitos; falam claramente a linguagem do encorajamento estimulante ou do aviso acautelador. Não existem recordações indiferentes ou sem sentido” (ADLER, p. 58)

Curiosamente, uma memória enganadora, ou seja, uma memória de algo que não existiu de verdade pode ser tão eficaz para eliciar um determinado tipo de comportamento quanto uma memória real. O autor continua o seu argumento sobre a finalidade neste trecho: “Toda a memória é domina pela ideia-meta que dirige a personalidade como-um-todo. Uma lembrança duradoura, mesmo que seja falsa (…) pode sair dos domínios da consciência e se transformar em uma atitude, um tom emocional, ou mesmo um ponto de vista filosófico, se isto for necessário para se alcançar a meta desejada” (ADLER, p. 60).

Imaginação

Na parte em que define a imaginação, Adler também inclui os conceitos de alucinação e delírio. Para quem não trabalha com psicologia clínica, psicanálise ou psiquiatria, este tipo de questão pode parecer sem sentido. Mas para todo clínico, entender o que significa uma alucinação de um paciente é parte do seu trabalho, assim como conseguir diagnosticar de maneira adequada os sintomas e as doenças mentais correspondentes.

Para Adler, as alucinações e os delírios não seriam fantasias sem significado. Ele diz: “Chamamos-lhes alucinações quando as fantasias aparecem como se fossem o resultado de um estímulo realmente presente” (ADLER, p. 60), e, mais a frente: “As alucinações aparecem na ocasião em que a tensão psíquica está no auge, e em circunstâncias em que uma pessoa receia ser impossível atingir o alvo” (ADLER, p. 62).

Ele cita o exemplo de uma mulher de família rica que faz um casamento desfavorável em termos financeiros, pois o marido é bem mais pobre. Por conta disso, ela briga com a família toda e se afasta deles. Devido ao seu orgulho e à sua ambição, ela fica anos sem falar com eles, inclusive quando tem um filho, apesar de que, também, do outro lado a atitude não é favorável a uma reaproximação. Quando os problemas estão atingindo o seu auge, ela alucina que a Virgem Maria aparece para ela, prevendo a sua morte em dezembro próximo.
Segundo o autor, devido à sua ambição e vontade de dominar a família, ela não tinha tentado uma reaproximação. Quando viu que eles também não davam o braço a torcer, inconscientemente, ela tem esta alucinação de que vai morrer em breve. O que é digno de nota é que ela não chora, não se entristece, porque sabe que a morte não está próxima. Ao contar para o seu marido, a notícia se espalha e, em pouco tempo, a família toda está aos seus pés novamente. Assim, Adler explica a alucinação como a fantasia que aparece, como se fosse um estímulo externo, quando a situação está insustentável e o sujeito não encontra outra forma de solucionar o seu problema.

Fantasias

As fantasias e os devaneios, o que chamamos de sonhar acordado, são muito comuns na infância, mas estão presentes igualmente em momentos do nosso dia-a-dia quando deixamos o pensamento dirigido e crítico e seguimos o fluxo de ideias. Do mesmo modo que acontece com os outros conceitos, para Adler, as fantasias sempre possuem um objetivo, uma meta, um alvo: “As fantasias… sempre se relacionam com o futuro. (…) A análise das fantasias infantis revela claramente que, nelas, o papel predominante é o esforço para a obtenção de poder” (ADLER, p. 66). Por exemplo, a criança que brinca que é grande e que tem o poder de fazer isto ou aquilo – que não pode fazer ainda.

E, devemos nos lembrar que o poder de fazer isto ou aquilo, o poder em geral (Machen) está intimamente ligado com as relações sociais, já que desde pequenos estamos envoltos pela sociedade que, por sua vez, também nos instiga a conquistar e valoriza o destaque social, o status. 

Adler escreve: “O senso de sociabilidade, do mesmo modo que o esforço por domínio, desempenha um grande papel na vida da fantasia (…) Manifesta-se tal característica nas fantasias em que uma pessoa se figura de salvador, ou paladino, ou triunfador sobre forças malignas, demônios, e coisas que tais”. (…) Muitos imaginam que pertencem a outra família e que um dia seu verdadeiro pai, algum importante personagem, virá buscá-las” (ADLER, p. 67).

Sonhos

Neste capítulo quarto do livro A Ciência da Natureza Humana, Adler não se aprofunda sobre os sonhos. Diz, entretanto, algumas informações importantes: “Os sonhos constituem uma reprodução do mesmo mecanismo mental dos devaneios” (ADLER, p. 68).

O seu grande objetivo é o de planejar a vida futura: “Limitamo-nos por agora a dizer que o esforço por domínio ou poder de um indivíduo a procurar vencer dificuldades e garantir sua posição no futuro, encontra eco em seus sonhos”. (ADLER, p. 68)

Empatia

A empatia é a capacidade de sentir e se aproximar do outro: “A empatia ocorre desde o momento em que uma ser humano fala com outro. É impossível compreendermos outro individuo se nos for impossível identificar-nos com ele. O drama é a expressão artística da empatia” (ADLER, p. 69). Sentimos empatia em situações banais como quando freamos o carro sem estarmos dirigindo ou quando vamos ao teatro e sentimos os sentimentos do personagem ou entramos em um jogo de futebol e defendemos ou chutamos a bola.

Como vimos no início do texto, para Adler a adaptação ao meio, que inclui a sociedade, é um tema central de seus estudos. Por isso, para ele quem não tem empatia está longe de conseguir adaptar-se e perto de ter ou desenvolver uma perturbação mental: “Casos de crueldade com os animais, que notamos na infância, seriam quase impossíveis de ocorrer sem a ausência quase total do sentimento de sociabilidade e da aptidão de identificar-se uma pessoa com outros seres vivos” (ADLER, p. 70). Como sabemos, casos como este geralmente indicam algum distúrbio futuro.

Hipnotismo e sugestão

No último tópico do texto, Adler menciona a hipnose e a sugestão, que ainda estavam em voga no início do século XX. Segundo ele, “Na hipnose estamos comumente a lidar com indivíduos que, embora pareçam reagir à ação do hipnotizador, estão essencialmente desejosos de se submeter às suas ordens” (ADLER, p. 73).

Não poderia ser diferente, afinal, até aqui vemos que o ponto central de todos os conceitos de Adler é a relação do indivíduo com o seu meio e o desejo de poder. Na hipnose, claramente, o sujeito deixa o seu poder e dá-o para uma outra pessoa, o hipnotizador: “Em nenhum caso, o grau de prontidão em obedecer depende da vontade do hipnotizador. Condiciona tão prontidão a atitude psíquica do paciente ou médium” (ADLER, p. 73).

Uma consequência interessante a ser retirada deste ponto é que a educação de um sujeito não pode ser feita se o conteúdo ou a forma provocar um mal no indivíduo, como as punições que eram frequentes. Assim como para aprender e para educar-se o sujeito tem que ter certa autonomia para pensar e, ao mesmo tempo, a capacidade de ter empatia com o educador.

Conclusão

Neste texto, podemos ver como os argumentos fundamentais de Adler são também explicativos para diversas áreas do funcionamento psíquico. Fiz questão de citar diretamente o texto porque sei que quase ninguém tem acesso a este livro aqui no Brasil.

Na próxima Lição, falaremos sobre o senso de inferioridade e a luta pela consideração.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913