Olá amigos!

Uma das mais fascinantes descobertas das neurociências é que sentimentos considerados inefáveis como o amor, a paixão, o desejo estão relacionados a determinadas substância químicas. A ideia de uma poção do amor que fizesse o outro – ou a outra – se apaixonar esteve presente nos contos de fada e na imaginação popular. Neste texto, vou comentar sobre as substâncias ligadas à estes estados emocionais.

Mas antes de começarmos, gostaria de dizer que é necessário ter cautela com esta ideia da possibilidade de gerar um efeito emocional – tão profundo – apenas fazendo uso de drogas químicas. Na verdade, esta ideia ainda não se encontra disponível, em farmácias, por exemplo, mas quando falamos sobre este tema, a ideia parece surgir de imediato. Se eu digo que a vasopressina provoca o sentimento de fidelidade em animais, que vão conviver depois até o final de suas vidas, parece que se cria rápido uma necessidade mercadológica: aonde posso comprar isto para dar para o fulano ou para fulana?

Quem possui o espírito mais crítico, irá duvidar da eficácia deste tipo de coisa, pois o cérebro humano é infinitamente complexo. Por isso, é necessário alertar que o problema de uma droga (ou drogas ou substâncias químicas) provocando o amor não é tão simples quanto poderia parecer à princípio.

Só para dar uma perspectiva com relação a isso, embora a visão materialista dentro das neurociências seja predominante – como vimos na Lição 1 – nada indica que a visão espiritualista esteja equivocada. Para quem consegue ver além, a physis é apenas uma das qualidades da matéria, e o cérebro não seria o produtor dos fenômenos, mas tão somente um receptor para vibrações mais elevadas, assim como um rádio que capta o sinal das ondas sonoras. Quer dizer, quem vê, vê, mas quem não vê além, só crê no que pode ver.

De todo modo, não posso deixar de compartilhar com vocês as recentes descobertas sobre as fórmulas do amor, do desejo e da paixão.

A luliberina e o desejo

Em pesquisas com cobaias em laboratório, ficou comprovado que a luliberina ou Gn-RH quando introduzida no organismo do macho provoca o desejo irrefreável de cópula. Na verdade, após ter contato com a substância, o organismo vai tentar copular com a primeira fêmea que encontrar em seu caminho. As fêmeas, do seu modo, também reagem de forma intensa quando recebem a luliberina, mostrando-se receptivas aos machos.

No organismo dos seres humanos, esta substância química possui o mesmo efeito do que nos cobaias estudados. Porém, para que tenha eficácia teria que ser introduzida diretamente no cérebro. Naturalmente, este composto é produzido no hipotálamo e controla os hormônios que ativam o desejo. Uma pequena quantidade no diencéfalo já mostra-se suficiente para desencadear um desejo tão grande que mal pode ser contido.

Mas além do desejo físico, o amor contempla outras necessidades.

A vasopressina, a oxitocina e a fidelidade

Tom Insel, um importante neurocientista da Universidade de Emory, conseguiu demonstrar que a vasopressina possui íntima relação com a manutenção da fidelidade de um casal de cobaias, mais especificamente, de arganazes-do-prado, um típico roedor dos Estados Unidos.

Se injetada no organismo de um macho, a vasopressina faz com que este permaneçam ao lado de sua companheira e não a abandone. Por uma curiosidade da natureza, a vasopressina não possui o mesmo efeito se aplicada nas fêmeas. Para que as fêmeas tenham despertado o sentimento de fidelidade é necessário o uso de outra substância, a oxitocina.

O que Tom Insel fez, experimentalmente, com os arganazes-do-prado foi semelhante ao que acontece na natureza, porém, após as primeiras cópulas. Quando atingem a maturidade para criar uma nova geração, estes roedores copulam intensamente durante um dia inteiro. Após o período de mais ou menos vinte e quatro horas, o corpo libera automaticamente vasopressina, no caso do macho e oxitocina, no caso da fêmeas.

Assim, os arganazes-do-prado são uma espécie naturalmente fiel depois do primeiro encontro, defendendo o seu habitat juntos, e, se um deles morre, o outro continua sozinho até a morte.

A única diferença entre o experimento do neurocientista e o que acontece na natureza é que, na natureza, é necessário um dia inteiro de cópula para liberar as substâncias da fidelidade, enquanto que em laboratório foi conseguido efeito idêntico apenas com as substâncias correspondentes.

O que é curioso não é apenas o fato de uma única substância ter um efeito tão duradouro na vida destes roedores. Também foi possível comprovar que sem a oxitocina e sem a vasopressina, os animais não ficavam fiéis, ainda que tivessem a forte experiência de um dia inteiro de cópula.

Aqui é preciso ressaltar que as relações de amor e fidelidade entre seres humanos são bem mais complexas. Segundo diversos estudos, a monogamia é predominante, porém esta fidelidade com o parceiro não só pode não durar uma vida toda como relações intensas sexualmente, ao contrário dos arganazes-do-prado, não surtirem o efeito da fidelidade, do anseio para ter próximo, do sentimento de que a pessoa é única e insubstituível.

No caso, a diferença entre o ser humano e os animais estudados é que nós temos o córtex cerebral muito mais desenvolvido. Como já estudamos em aulas anteriores do nosso Curso de Neurociências Grátis, o córtex é responsável pela razão, pela capacidade de abstração (se colocar além dos sentidos e sensações), e, mais importante, pela autoconsciência.

Ou seja, as substâncias que são ativadas e são responsáveis pelo desejo, pela atração, pela saudade e vontade de ficar próximo para sempre (fidelidade) podem estar atuantes em um corpo. Porém, a consciência do que está acontecendo pode fazer com que, embora fortes, tais sensações e sentimentos sejam rechaçados. Quer dizer, o ser humano pode se deixar levar pelo que sente ou pode, a partir de sua consciência, ir contra e superar a necessidade que vem do corpo.

O amor como uma droga

Não é difícil fazer uma analogia entre o amor e as drogas. Uma pessoa que está amando outra, pode ter tão forte o sentimento de dependência que seu estado assemelha-se a um dependente químico. É apenas uma analogia, mas para a neurociência possui o seu fundo de verdade.

Analisando o cérebro de diversas pessoas que estavam amando loucamente, os neurocientistas Andreas Bartels e Semir Zeki descobriram que as áreas ativadas no cérebro quando tais pessoas pensavam ou viam os parceiros amorosos eram próximas das que ficam ativadas com o consumo de drogas. Quer dizer, o padrão de atividade, segundo eles, é muito parecido no amor apaixonado e no vício do uso e abuso de substâncias químicas como a cocaína e heroína.

E como isto funciona?

De acordo com estudos recentes, tanto a cocaína quanto a heroína atuam nas mesmas áreas do cérebro que as substâncias ligadas ao desejo e a fidelidade, ou seja, a cocaína e a heroína atuam em circuitos cerebrais que também ficam ativados com a oxitocina e a vasopressina. No dinamismo fisiológico cerebral, após a atuação destas substância há a liberação da dopamina, que, conforme já vimos, possui relação com o prazer e a atenção.

Mas será que podemos dizer mesmo que o amor é como uma droga?

“O neuropsicólogo Jaak Panksepp chega a comparar o amor à dependência química: em um caso, fica-se dependente da droga; no outro, de uma pessoa. Essa similaridade se torna especialmente evidente no instante da separação: sintomas de privação são observados tanto quando a droga é retirada quanto no momento em que a pessoa amada diz adeus. Nos dois casos, as consequências são sensações de solidão e abandono, falta de apetite, tristeza, insônia e irritabilidade” (KLEIN, 2005, 139).

Conclusão

Em minha opinião, é muito interessante que possamos descobrir quais substâncias químicas e quais áreas do cérebro apresentam relação com o desejo, com o amor, com a fidelidade. Porém, como disse no começo e ao longo do texto, é necessário ter cautela ao pensar sobre tais relações.

Em primeiro lugar, existem as diferenças individuais e de organismo. (E aqui não só de uma espécie para espécie, mas também as diferenças entre uma pessoa e outra). Em segundo lugar, é preciso saber que ainda que haja a presença de uma substância química, o ser humano possui a capacidade de abstração, de reflexão, de consciência sobre os seus próprios sentimentos e pensamentos.

Assim, ainda que alguém se apaixone, pode sufocar a enorme torrente de sentimentos por vários motivos, como pressão social, distância, desinteresse pelo outro ou um ideal qualquer, como focar os esforços na carreira ou partir para um caminho ligado ao ascetismo e à espiritualidade.

Portanto, podemos dizer que tais substâncias químicas, assim como as drogas, possuem efeitos no cérebro e em todo o corpo. Porém, uma parte do cérebro está como que em um nível acima, na capacidade de considerar e refletir sobre o que está acontecendo.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness e Pós-Doutorando (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913