Neste texto, visamos expor quais são as afirmações de Sócrates sobre a causa da constituição da cidade, quais são as classes de indivíduos que constituem-na, bem como suas especificidades e como os membros de cada classe devem ser educados. Essas noções são extraídas da obra República de Platão, nos Livros II e III.

A constituição do Estado platônico: as classes e a educação

Após o final da discussão entre Sócrates e o sofista Trasímaco acerca da definição de justiça e sobre a qual Sócrates nada conclui, o interlocutor passa a ser Glauco. O problema inicial que se apresenta é sobre a existência de espécies de bens. Os primeiros encontrados foram os bens que se busca por amá-los em si mesmos – como a alegria, os prazeres inofensivos – e seus efeitos – como o deleite de quem os possui. Depois de confirmada a existência dos mesmos, fala-se sobre os bens que se ama em si mesmos e por suas consequências.

Como exemplo, temos o bom senso, a visão e a saúde. Há também uma terceira espécie de bens pelos buscados devido às suas vantagens, devido às recompensas que proporcionam. Como exemplo, temos a ginástica, a cura de uma doença, o exercício da arte médica ou outra profissão lucrativa. Sócrates enquadra a justiça na segunda espécie de bens, ou seja, aqueles que se amam por si mesmos e por suas consequências. Esses bens, afirma Sócrates, devem ser amados por quem deseja ser plenamente feliz.

Glauco propõe o questionamento sobre a natureza da justiça e da injustiça e deseja, ainda, conhecer o poder próprio de cada uma ao considerá-las em si mesmas. Propõe-se, também, a falar sobre a constituição da cidade corrupta. O itinerário argumentativo de Glauco é iniciado pela exposição sobre a natureza e origem da justiça. Segundo ele, os homens afirmam que é melhor cometer a injustiça do que sofrê-la. Contudo, quando a comentem e a sofrem, e não podem se vingar, originam-se as leis e convenções. O que a lei prescreve é considerado justo.

Logo, a origem e a essência da justiça é “Uma espécie de compromisso entre o maior bem, ou seja, a impunidade para todas as malfeitorias, e o maior mal, isto é, a impotência de vingar-se quem foi vítima de injustiça” (Rep., II, 359 a-b). A natureza e a origem da justiça, conforme o senso comum, é que a justiça não é um bem apreciado em si mesmo, ela é apreciada porque se tem impotência para cometer a injustiça, ou seja, os homens estabelecem um compromisso entre si com a finalidade de não sofrerem a violência do mais forte.

Glauco narra a história do Anel de Giges e, utiliza-se dela para afirmar seu argumento: ninguém é justo por vontade própria, mas por obrigação. Ele representa, apesar de não concordar com seus próprios argumentos e de desejar ser convencido por Sócrates de que a justiça é mais vantajosa, os que julgam a injustiça acima da justiça. Afirma que os deuses e os homens proporcionam melhor vida ao injusto, conforme a opinião comum, e ressalta que é mais importante parecer ser bom do que sê-lo.

Nesta altura do diálogo, Adimanto – irmão de Glauco – toma parte da discussão e se propõe a expor uma tese contrária a de seu irmão, tendo, assim, como objeto o elogio à justiça. De acordo com esse interlocutor, as pessoas elogiam não a justiça em si mesma, mas sim a reputação acarretada por ela – haja vista que a reputação pode trazer muitas vantagens ao homem. Adimanto expõe a concepção de justiça e de injustiça desenvolvidas por poetas e pelo povo: todos celebram como boas a justiça e a temperança, contudo, acham-na difíceis e penosas. A intemperança e a injustiça parecem, ao povo e aos poetas, agradáveis e de fácil domínio, sendo vergonhosas somente sob a visão da opinião pública e sob a visão da lei. Logo, a injustiça e a intemperança são mais proveitosas que seus contrários. Mesmo que ambas sejam mais proveitosas do que a justiça e a temperança, é necessário que se aparente ser justo e temperante já que a aparência “ manda na verdade e dirige a felicidade, é para esse lado que deverei voltar-me”(Rep., II, 365 c).

Com a finalidade de esconder a maldade, a injustiça e a intemperança, existem os sofistas que ensinam a eloquência pública e judiciária. Assim, consegue-se escapar dos castigos. Adimanto afirma que ninguém é justo por vontade própria, mas por covardia, por idade ou por outra fraqueza que incapacite o homem de cometer a injustiça. A justiça não é louvada por si mesma, louvam-na devido às recompensas a que está vinculada, louvam-na visando as honras e reputação. Após expor sua argumentação, Adimanto pede a Sócrates que prove que a justiça é mais forte que a injustiça, pede que Sócrates mostre os efeitos os quais cada uma delas produz por si mesmas na alma, ou seja, pede que sejam demonstradas as consequências que ambas produzem em seu possuidor.

Após o pedido de Adimanto, Sócrates afirma que não sabe como defender a justiça, pois a busca pela natureza desta e da injustiça exige acuidade de espírito – qualidade que ele afirma faltar aos presentes. De acordo com o filósofo, a justiça é um atributo do indivíduo e também de toda a cidade. Portanto, é estabelecido um paralelo entre a cidade e o indivíduo: analisa-se a natureza da justiça naquela, primeiramente, para depois analisar a natureza da justiça no indivíduo:

Sendo assim, é possível haver no que é de dimensões mais amplas uma justiça maior e mais fácil de conhecer. Caso estejais de acordo, investiguemos de início como é a justiça na cidade, para depois a estudarmos nos indivíduos, quando, então, compararemos os traços fundamentais do maior conceito com as formas mais pequenas(Rep., II, 368 e – 369 a).

A análise inicia-se com a explicação da causa do nascimento da cidade. Segundo Sócrates, a cidade tem origem pois o indivíduo não se basta por si só. Assim, a cidade construída por ele tem como alicerces as necessidades humanas: a primeira necessidade é a alimentação; a segunda necessidade é moradia; a terceira necessidade é o vestuário e tudo que a ele se liga. Sócrates vai descrevendo e habitando a cidade de acordo com as outras necessidades que se tem, como por exemplo, a necessidade de que haja um artesão que fabrique as ferramentas necessárias para a construção de uma casa. Conforme a cidade vai crescendo, tomando forma, são atribuídas as funções de cada cidadão, já que não há a possibilidade de que um mesmo cidadão exerça, de modo satisfatório, várias funções.

Assim, as três classes vão sendo definidas: a classe dos árchontes, a classe dos phylakés e a classe dos produtores. Os árchontes são os governantes, os responsáveis por governar a cidade, os phylakés são os guerreiros responsáveis por defenderem a cidade, os produtores fornecem os bens necessários ao sustento de toda a cidade. Como podemos notar, a visão da sociedade, de acordo com Platão, é como um todo orgânico, bem integrado e que possui unidade e esta, por sua vez, é constituída de vários elementos independentes, cada um exercendo da melhor forma possível suas tarefas, e mesmo que esses elementos sejam independentes, estão integrados dentro dessa unidade.

Ao fundar a cidade, Sócrates visa que toda a cidade seja feliz. Para isso, os guardiões da cidade e das leis não o podem ser apenas na aparência, pois isso levaria a cidade à ruína já que eles são os únicos a administrar bem a cidade a torná-la feliz. Como condição para a construção da cidade, tem-se a educação das crianças e dos jovens para que estes, posteriormente, compreendam a propriedade das mulheres, a procriação e os casamentos.

A Educação para Platão

Há também outro ponto muito importante para a manutenção da cidade, os guardiões devem se esforçar para que a educação não altere seu conhecimento. Não deve haver nada de novo quanto à ginástica e quanto à música, pois quando se toca nas formas musicais, consequentemente toca-se nas leis da cidade e estas são abaladas, haja vista que a ordem penetra nas crianças através da música. Inicialmente, todos devem ser educados através da ginástica para o corpo, música e discurso para a alma – histórias, mitos que visam educar a criança, mesmo que esses mitos sejam mentirosos, há algo de verdadeiro neles que não se pode comprovar.

Agora, pois, responderemos à questão acerca da educação correspondente a cada classe do Estado platônico. A preparação dos governantes se inicia na educação das crianças, oferecendo-lhes oportunidades iguais, ou seja, a educação universal é o primeiro passo para encontrar os futuros reis-filósofos, posto que a educação visa a apreensão do Ser, a elevação da alma, visa os meios mais eficazes de apreender a Forma suprema. Inicia-se com educação física durante os primeiros dez anos. Com a finalidade de não deixar que o homem se torne unilateral, estuda-se música para que a alma aprenda a harmonia, o ritmo, a temperança e também para que seja desenvolvida a propensão à justiça, pois o homem que é constituído de forma harmoniosa, dificilmente será injusto. Assim, o atletismo e a música devem ser combinados. Também deve-se ensinar, desde a infância, a aritmética, a geometria e todas as outras ciências que servem como preparação ao estudo da dialética. Aos vinte anos, ocorre a primeira Grande Eliminação.

São realizados testes acadêmicos e práticos com a finalidade de selecionar os mais ágeis mental e fisicamente. Os que nessa etapa forem eliminados, constituirão as partes correspondentes aos negócios: serão funcionários, operários de fábricas e agricultores. Os que por esse teste passarem, terão suas mentes, caráter e corpos educados por mais dez anos. Estudarão o conjunto das ciências, a relação das mesmas entre si e com o Ser.

Nessa fase dos estudos, já se pode notar se o espírito apresenta capacidade de síntese, já que ela caracteriza o espírito dialético. Após esse tempo de estudos, será realizado o segundo teste. Os que fracassarem tornar-se-ão auxiliares, assessores executivos e oficiais militares do Estado.Os que passam nessa segunda etapa, encontram-se já com 30 anos, dedicar-se-ão à filosofia e lhes são exigidas acuidade para as ciências e facilidade para aprender. Serão ensinados a pensar com clareza e a governar com inteligência – o que corresponde à política. Através da dialética – que eleva a alma ao mais alto grau do pensamento – a alma é erguida até o Ser. Já que a essência da educação é buscar as formas, os que logo se tornarão reis-filósofos ficam por mais 5 anos exercitando a dialética, visando atingir a Forma suprema.

Nesse tempo, os filósofos habituam-se a ver os objetos nas regiões superiores à caverna, aprendem a distinguir a sombra do objeto e a imagem do objeto. Apreende, após muita dificuldade, no mundo do inteligível, a ideia do Bem. Reconhece-a como o princípio de todas as coisas, e só após vê-la é que se pode comportar-se com sabedoria na vida pública e privada. Depois de terem vislumbrado o Bem, os filósofos devem retornar para ajudar ao próximo e para fortificar o Estado – haja vista que o Estado propiciou que os mesmos fossem formados e capacitados para aliar os negócios ao estudo da filosofia. Exercerão cargos militares e dessa forma há de se perceber se eles hão de se abalar com o retorno à escuridão.

Ficam nela por mais 15 anos. “Por isso, é preciso que desçais, cada um por sua vez, à morada e vos acostumeis às trevas que aí reinam; quando vos tiverdes familiarizado com elas, vereis mil vezes melhor e conhecereis a natureza de cada imagem e de que objeto ela é a imagem, porque tereis contemplado verdadeiramente o belo, o justo e o bem” (PLATÃO, VII). Após esse último teste, deverão usar a Ideia do Bem com a finalidade de organizar a cidade. Organizarão, também, os particulares e a si mesmos de acordo com as exigências do Bem pois  “A inteligência das Formas, do Bem, dirige e obriga nosso conhecimento e nossa ação. Desde então, libertos para ver e para saber, somos engajados pelas exigênciasdo Ser; o conhecimento do Ser impõe-se à nossa vontade, e não mais somos livres diante do erro. A procura da verdade faz-se obediência ao Bem”(GOLDSCHMIDT, 1963, p. 25).

A tríade platônica – constituída pelo Belo,pelo Justo e pelo Bem – só pode ser contemplada através da elevação da alma, através da verdadeira filosofia cuja busca é a verdade. O Belo, o Justo e o Bem servem de paradigma para a construção de uma cidade justa e que vise o bem comum. O filósofo deve lançar luz à escuridão da caverna. Deve levar conhecimento aonde prevalece a ignorância. Na cidade, os quem devem governar não são os que buscam o poder, mas o que buscam a verdadeira filosofia. A ação submete-se à contemplação pois o filósofo vislumbrou o Bem em si e só para essa Forma que a justiça e a virtude servem, é só através dessa Ideia é que se pode estabelecer os paradigmas para construir a cidade que remeta à Realidade.

Logo, a Ideia suprema faz-se necessária para que se possa aplicar a Teoria das Ideias à política. O bem auxilia no entendimento das essências, a alma só pode apreender o inteligível através do mesmo; ele ilumina o objeto com o Ser e com a verdade. Só após contemplá-lo, pode-se ter parâmetros para agir. Aos habitantes que deixaram a caverna, é imperativo que retornem e mostrem aos outros os objetos iluminados pelo bem. Para que os filósofos tenham o real conhecimento da verdadeira justiça e do verdadeiro bem, eles devem praticá-los. Se não o fizerem, estariam sendo injustos. Tem o dever de lançar luz aonde as trevas imperam já que viram o mundo das Formas e conheceram a Ideia de uma cidade justa. Pela cidade ele foi formado filósofo, e à mesma deve retornar para que retribua à ela e a todos que nela habitam com a visão da verdade.

Destarte, nota-se como Sócrates vai construindo a sociedade ideal, na qual cada indivíduo recebe a educação que esteja de acordo com sua aptidão, com sua tarefa dentro da cidade. Salientamos, pois, o percurso argumentativo como aparece na obra em questão para mostrar a causa da formação da cidade, a divisão da cidade em classes, a educação e a função de cada classe.

Referências bibliográficas

GOLDSCHMIDT, V. Os diálogos de Platão: Estrutura e método dialético. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

PLATÃO. A República. Belém : EDUFPA, 2000.

Michelle Vaz é graduanda em Filosofia