Neste texto visamos expor, de maneira concisa, a visão de dois grandes filósofos da modernidade acerca da lógica: Kant e Stuart Mill. Como problemas específicos, visamos, primeiramente, apontar como Kant define a lógica de modo a refutar o psicologismo e, após isso, apontar a teoria de Mill bem como em que sentido a lógica é concebida por este como normativa e descritiva.

Kant teve suas ressalvas com relação à filosofia humeana e esse mesmo problema remete àquele sobre o psicologismo na lógica. Para Hume, em seu Tratado da Natureza Humana, a finalidade da lógica é explicar os princípios e as operações da faculdade do raciocínio e também o de explicar a natureza das ideias humanas. Em contrapartida, Kant concebe a lógica como não sendo derivada nem da psicologia nem de outra ciência empírica.

De acordo com o filósofo prussiano, a lógica tem como função determinar como o pensamento deve ser em todas as suas aplicações. Percebe-se que se mostram os dois critérios kantianos: o critério da necessidade e da universalidade. É por esses critérios que Kant refuta a redução da lógica à psicologia, posto que a lógica é tida por ele como uma ciência racional segundo a forma, é o conhecimento que a razão e o intelecto possuem de si mesmos. Assim, o intelecto se conhece como objeto e como sujeito concomitantemente, pois os conceitos e as ideias utilizadas pelo intelecto e pela razão para a autoanálise são aqueles mesmos utilizados no conhecimento do mundo exterior. Cabe, pois, à lógica prescrever como ele deveria ser.

A lógica é concebida por Kant como uma doutrina normativa embasada em princípios a priori. Desses princípios, todas as regras e todas as provas destas regras podem derivar. A ideia de cálculo formal autossuficiente já circunda a visão kantiana. Esta ideia se faz fundamental para questionamento e crítica ao psicologismo. Em suma, a lógica para Kant é uma teoria normativa útil à crítica para a avaliação de todo uso do intelecto e da razão em geral, é uma ciência a priori das leis necessárias do pensamento com relação a todos objetos em geral. As generalizações a posteriori são contidas. A lógica é uma ciência do uso correto da razão e do intelecto segundo princípios a priori, de modo objetivo.

A refutação kantiana quanto ao psicologismo encontra seu fundamento na definição do conceito de lógica, pois neste há a visão normativa que o autor tem acerca da função da lógica e, devido à essa visão, Kant nega o psicologismo empirista e descritivista. Não obstante, o autor concebe a lógica como ciência das leis necessárias e universais da forma do pensamento, não se ligando à matéria do pensamento – conteúdo, significado.

Foi Stuart Mill quem assumiu a visão psicologista criticada por Kant. Para Martin Kush (2011), ambas as visões podem ser encontradas naquele autor. Na Introdução da obra Sistema de Lógica Dedutiva e Indutiva (1843), tanto elementos normativos quanto descritivos são utilizados dentro de uma concepção lógica que pode ser considerada como behaviorista, pois tanto a totalidade da ciência quanto do comportamento humano submetem-se à lógica. Com argumentos empiristas e utilitaristas, Mill embasa sua conclusão.

De acordo com Whately (1826), Stuart Mill entendia a lógica como uma ciência e como uma arte do raciocínio, concomitantemente. Raciocinar seria inferir qualquer asserção de asserções anteriormente admitidas. Fazer ciência do raciocínio seria explicar e descrever os processos mentais de origem inferencial e, devido a isso, a lógica possui caráter psicológico. Nota-se que o autor amplia o domínio da lógica.

A lógica é definida pelo autor como a ciência que abarca as operações inferenciais do entendimento humano na busca da verdade. Todavia, há dois modos de se conhecer a verdade: algumas verdades são conhecidas diretamente por si mesmas e algumas são conhecidas através de outras verdades. As verdades conhecidas por si mesmas são alvos da intuição ou da consciência, já as verdades conhecidas através de outras verdades são objetos da inferência. De acordo com o pensador, as verdades às quais se chega por meio da intuição são premissas originais e delas todas as outras são inferidas. Ora, conhecer esses dados originais não cabe à lógica.

Ao expor os dois modos de se chegar até a verdade, o autor afirma seu utilitarismo, posto que a lógica é vista como um instrumento que tem como finalidade nos dar conhecimento e também aumentar o controle que se tem sobre o conhecimento. Também com a definição de arte do raciocínio – parte técnica que cabe à lógica -, o utilitarismo de Mill se afirma novamente. Assim, a arte do raciocínio é definida como prescritiva por propor regras e, de acordo com estas, fica estabelecido como se deve raciocinar.

Não obstante, a arte de raciocinar, tomada como técnica, é um conjunto de regras que dizem sobre o bom cumprimento do raciocínio e não é psicológica em si, mas depende do entendimento anterior do funcionamento dos processos psicológicos que devem ser normatizados, antes de prescrever as normas. Um sistema de regras adequadas para dirigir a operação mental implica que se conheça de modo correto o processo mental em si, suas condições e seus níveis.

Fica evidente que a arte prescritiva da lógica só pode ocorrer após a análise feita pela ciência descritiva da lógica. A origem desta relação de dependência se dá, pois a lógica tem como base a descrição do ato de pensar para depois desta apontar o modo de pensar melhor. O autor inglês afirma, pois, que pensar com mais cuidado e vigor é o único modo de refinar os métodos utilizados para se filosofar.

Mill afirma que a lógica, enquanto ciência, é a análise da operação mental ocorrida ao raciocinarmos, já a lógica, enquanto arte, se faz pelas regras fundamentadas nessa análise (da lógica enquanto ciência) que conduzem de modo correto a operação mental.

O filósofo e economista inglês adere ao aristotelismo e considera, assim como o Estagirita, que os primeiros princípios do raciocínio não são conhecidos através de raciocínios, mas através de indução. Todavia, nota-se no pensamento do inglês a ideia cartesiana do conhecimento consciente como conhecimento direto da vida mental. Supomos que vemos ou que sentimos, mas, na verdade, inferimos, segundo a visão do autor.

Assim, há o retorno à tese de Berkley de que visão é obtida através de uma inferência rápida, pois o homem, aparentemente, tem cognições imediatas e assim o é a visão. Mas o que ocorre são processos inferenciais cujas velocidades não se pode apreender de modo consciente. A oposição entre o que pode ser concluído inferencialmente e o que se pode conhecer diretamente pode ser entendido como o psicologismo de Mill, de acordo com M. Klush.

Ao longo desta breve exposição, pudemos notar como a definição kantiana de lógica refuta o psicologismo e também como se justifica o fato da lógica de Stuart Mill ser considerada normativa e descritiva.

Michelle Vaz é graduanda em Filosofia