Hume divide o raciocínio em dois tipos: o demonstrativo e o moral. O primeiro refere-se às relações de ideias, já o segundo tipo diz de questões de fato e existência. Vale lembrar que o termo “moral” (tratado aqui) diz da qualidade de caráter, de modo que implica juízos de aprovação e censura. Esses juízos, por sua vez, acarretam o problema da imputabilidade moral.

A maior parte dos raciocínios do homem embasa-se em expectativas. Estas são acompanhadas de maiores ou menores graus de certeza sobre como os seres humanos irão se comportar em determinadas circunstâncias. As expectativas fundam-se na observação e na experiência passada da uniformidade e da regularidade de seus comportamentos. Mas se nota que esperamos que os outros ajam de acordo com as expectativas que criamos com relação a eles, todavia, quando consideramos a nós mesmos, a escolha da ação aparenta ser livre. Neste ponto, cabe perguntar por que isso ocorre. A resposta dada pelo empirista é de que isso ocorre porque, quando estamos sob a ótica do observador, sentimos a necessidade de certas ações. Entretanto, quando estamos sob a ótica de agentes, não sentimos essa necessidade por nos sentirmos livres em nossas ações.

Hume afirma que os atos da vontade resultam da necessidade. Expõe ainda que esse “autoengano” ocorre devido a uma forte propensão que temos em acreditar que podemos adentrar mais profundamente nos poderes da natureza, de modo que percebemos a conexão necessária entre causa e efeito. A propensão é reflexo da falta de um exame detido sobre o assunto. Caso esse exame fosse feito, o homem reconheceria sua ignorância e as falhas que são cometidas por suas faculdades.

Um grande problema apontado pelo filósofo seria a falta da sensação, porque quando os homens guiam seus reflexos para a operação de suas próprias mentes, de modo a não sentirem a conexão existente entre o motivo e a ação, são levados a supor que existe uma diferença entre os efeitos – resultados de uma força material – e os efeitos que provêm do pensamento e da Inteligência. A falta dessa sensação vem da capacidade que o homem tem de imaginas várias possibilidades de ação, pois a faculdade de imaginar é o que há de mais livre. Destarte, fica explicada a nossa falsa crença na vontade livre: o livre exercício da imaginação, como opera com uma margem de “ação” muito maior que de outras faculdades, é o responsável por produzir essa falsa crença na vontade livre.

Hume propõe-se a fornecer três razões para a prevalência da doutrina da liberdade sobre a da necessidade, mesmo que ele a tome por absurda e ininteligível. A primeira razão decorre da dificuldade de persuadirmo-nos de que fomos governados pela necessidade e de que nos teria sido impossível agir diferentemente. A dificuldade parece relacionar-se com a indefinição dos termos em questão – necessidade e liberdade – de modo que a definição do termo necessidade parece implicar algo de força, de violência ou de constrangimento. Não temos consciência disso ao agir, mas Hume aponta para isso como um engano, como um erro de perspectiva, já que os homens iniciam pelo lado errôneo dessa questão ao investigar, primeiramente, as faculdades da alma sob a influência do entendimento e das operações da vontade.

Hume responde que “se pudermos formar alguma ideia de causação e de necessidade que não seja a de uma conjunção de objetos e uma subsequente inferência pela qual a mente passa de um a outro desses objetos, e pudermos também reconhecer que essas circunstâncias abrangem toda a necessidade que concebemos tanto na matéria quanto nas operações da mente, a disputa chega ao fim ou, ao menos, dever ser reconhecida como meramente verbal” (HUME, p. 400).

A afirmação do filósofo justifica-se, pois segundo ele, 1) não conseguimos conceber causação ou a necessidade que não seja a conjunção constante de objetos e também a inferência mental de um objeto a outro e; 2) a necessidade é mental. Hume adverte que enquanto for suposto irrefletidamente que o homem tem alguma ideia adicional de necessidade e causação nas operações dos objetos externos e que não consegue descobrir isto em ações voluntárias da mente, parte-se de uma suposição errada que não permite que a questão seja concluída. Para que o homem se desvencilhe desse engano, deve-se examinar, primeiramente, o limitado alcance da ciência quando aplicada às causas materiais. E, assim, o homem deve ser persuadido de que tudo o que sabemos dessas causas são: conjunção constante e inferência da mente. Posteriormente, deve-se aplicar a mesma doutrina da necessidade às ações da vontade. Isso se explica devido ao fato de que a evidência de que as ações da vontade apresentam uma conjunção regular com motivos, caracteres e circunstâncias aparece sempre que o homem faz inferências de uns motivos para os outros.

Hume afirma ainda que a falta de entendimento origina a confusão entre os dois diferentes tipos de liberdade, a “liberdade de indiferença” e a “liberdade de espontaneidade”. Esta diferença refere-se ao que se opõe à violência e ao que significa uma negação da necessidade e das causas. A ideia que se faz de alguém que age de maneira não livre é a ideia de que foi forçado a agir contra a sua vontade. Assim, pode-se afirmar que essa pessoa não tinha alternativa e que essa falta de alternativa é vista como uma negação de sua liberdade com relação àquela ação. Mesmo que no cotidiano o homem execute qualquer ação sem que haja qualquer ameaça, não se pensa que haveria outra alternativa. Este exemplo é sobre um caso da ausência de força ou de constrangimento, é um exemplo de liberdade de espontaneidade. É esse o sentido mais comum da palavra e é o único sentido que Hume visa preservar.

A segunda razão dada por Hume para a predominância da doutrina da liberdade se explica por uma falsa sensação ou experiência aparente de liberdade ou de indiferença que se tem ou que se pode ter em várias ações. Essa falsa sensação é a base da crença na vontade livre para o autor. Da falsa sensação de liberdade segue-se a conclusão (por parte do autor) de que não há determinação nas ações do homem, assim como há uma certa indefinição que sentimos em passar ou não passar da ideia desses objetos à ideia da ação. O argumento de Hume embasa-se sobre a afirmação de que o fato de não se ter consciência da determinação causal subjacente ao agir humano, não implica que não podemos inferir, de modo lícito, que o agir humano não está sob determinação causal.

O observador das ações humanas é o ser pensante e inteligente que pode considerar sob uma perspectiva de quem está de fora da ação. Este observador acredita que as ações particulares são causadas por seus antecedentes por já ter observado conjunções constantes entre antecedentes e ações do mesmo tipo. A partir deste ponto, o observador sente a determinação da mente a passar de uma ideia à outra que a acompanha. Todavia, o agente que executa a ação não sente essa determinação, pois é sempre sensível a uma certa indiferença, o que acarreta que ele considere sua vontade completamente livre ou não-causada.

Vale explicitar que é o somente do ponto de vista do agente que pode haver essa sensação de indiferença devido ao fato de que o observador sempre relaciona motivos e ações e passa a obter expectativas em relação ao comportamento dos outros homens. Hume afirma, pois, que nossas crenças causais resultam de um sentimento de determinação. Todavia, esses sentimentos nos abandonam quando somos nós que agimos.

Na teoria humeana, nota-se a impossibilidade de afirmar a existência da liberdade da vontade, já que o filósofo não se detém em provar que a vontade é livre. Hume considera que todo evento tem uma causa e, ainda, que toda causa é um evento, o que significa que qualquer evento e as suas causas vão remontar uma cadeia infinita de causas antecedentes. Assim, não se pode afirmar que uma ação é um evento causado por uma vontade que é livre. Aceitar que um evento é causado por uma vontade que é livre só seria possível caso o princípio de causalidade universal implicasse somente a primeira proposição. Deste modo, se a vontade é uma causa, então ela também seria considerada um evento e, pois, seria uma causa causada. A ideia é que toda causa é o efeito de outra causa.

O autor trata do acaso como uma palavra negativa a qual não designa nenhum poder real que exista em alguma parte da natureza. Para explicar o fenômeno da falsa sensação ou crença na vontade livre, é necessário responder à pergunta pela sua causa, isto é: qual a causa da crença na vontade livre? O filósofo explica que o sentimento de que nossas ações estão submetidas a nossa vontade e de que sentimos que a vontade não está submetida a nada, significa que imaginamos sentir, que cremos que a vontade não se submete à nada. Hume explica que concebemos muitas coisas nas quais não acreditamos. Destarte, há uma diferença entre a simples concepção da existência de um objeto e a crença neste objeto. A diferença não se encontra nas partes ou na composição da ideia que concebemos, visto que a diferença reside na maneira como concebemos essa ideia.

O filósofo afirma que a faculdade da imaginação não pode jamais alcançar a crença por si só, já que a crença é um ato da mente que decorre do costume. Há de ser considerado que ao agirmos, podemos imaginar outras alternativas possíveis de ação e podemos imaginar que qualquer uma dessas alternativas pode ser escolhida. Devido a isso, há uma forte inclinação a imaginar que a vontade é livre e, além disso, a constância desse fato de imaginar acarreta o fato de que nos acostumamos com a sensação de que podemos realizar outra ação e, enfim, como há uma conjunção constante entre a imaginação de poder agir de outro modo e a sensação que ela produz, o homem passa a crer que a vontade dele é realmente livre. Em suma, devido à repetição desse fato, a crença é gerada. Entretanto, nota-se que essa crença é um produto apenas da imaginação e a sensação de liberdade é falsa. Por isso a crença na liberdade da vontade é uma falsa sensação, que, por sua vez, é uma falsa crença e esta, por fim, é uma ficção ou ilusão.

Todas essas são as razões oferecidas por Hume para tentar justificar a predominância da doutrina da liberdade sobre a doutrina da necessidade.

Referências

HUME, David. Tratado da natureza humana. Trad. Serafim da Silva Fontes. Portugal. Edição Serviço de Educação e Bolsas Fundação Calouste Gulbekian

Michelle Vaz é graduanda em Filosofia