Olá amigos! Faz algum tempo que não publico por aqui, e estou retomando agora. Estou iniciando um pós-doutorado na Unesp sobre altas habilidades/superdotação na vida adulta, e conto mais sobre a pesquisa em breve. Por isso, este tema vai aparecer com mais frequência no site.

No consultório, escuto com frequência adultos que chegaram ao tema das altas habilidades/superdotação depois de anos tentando explicar a própria trajetória com palavras que não serviam. Reuni aqui cinco pontos que eu gostaria que toda pessoa nessa situação conhecesse.

Além de escrever aqui, atendo como psicólogo clínico, online, pelo Google Meet.

Saiba mais

1. Altas habilidades descrevem um perfil de desenvolvimento

Altas habilidades são um perfil de desenvolvimento, com características próprias. A definição adotada no Brasil descreve pessoas que demonstram potencial elevado em uma ou mais destas áreas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes. Somam-se a isso criatividade elevada e grande envolvimento com a aprendizagem e com tarefas ligadas aos próprios interesses (BRASIL, 2008). Doença, transtorno ou diagnóstico a ser tratado ficam fora dessa definição.

Conhecer esse perfil muda a forma como a pessoa lê a própria história. Aprender rápido e se entediar com a repetição, por exemplo, pode fazer parte dele sem ser sintoma de coisa alguma. Comportamentos que a pessoa aprendeu a ver como defeito podem ganhar outra leitura.

2. Altas habilidades não significam sofrimento inevitável

Há uma ideia popular de que inteligência alta traz sofrimento. Um estudo com dados de cerca de 260 mil adultos do UK Biobank, um grande banco de dados de saúde do Reino Unido, verificou que inteligência geral alta não esteve associada a mais transtornos mentais (WILLIAMS et al., 2023).

Duas ressalvas importam. O estudo mediu inteligência geral, que é só uma parte do conceito de altas habilidades. E transtorno mental e sofrimento psicológico são coisas diferentes: quando há sofrimento, ele precisa ser compreendido a partir da história, do contexto e das necessidades de cada pessoa.

3. Dupla excepcionalidade existe

Dupla excepcionalidade é o nome dado à convivência entre altas habilidades e outra condição, como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, autismo ou dislexia.

Habilidades e dificuldades podem mascarar umas às outras. O raciocínio rápido pode esconder a desorganização, e a desorganização pode esconder o potencial. Por isso, algumas pessoas passam anos sem que nenhuma das duas coisas seja reconhecida.

4. Você não precisa ser excelente em tudo

Ana, uma pessoa fictícia, resolve problemas complexos no trabalho com facilidade, mas se perde em prazos e papelada. Uma coisa não anula a outra.

Estar muito acima da média em uma área e ser mediano, ou ter dificuldade, em outra não desmente a identificação. Cada perfil tem as suas particularidades.

5. Notas e carreira não contam toda a história

Pense em alguém que aprendeu programação sozinho, por curiosidade, aos 14 anos, e terminou o ensino médio com notas medianas e uma reprovação. O boletim mostrou uma parte; o que essa pessoa conseguia fazer mostrou outra.

Desempenho depende também de oportunidades, apoio, saúde e condições de vida. Por isso, notas e cargos não medem sozinhos o potencial de alguém.

Antes de tirar conclusões

A identificação de altas habilidades se faz com avaliação por profissional habilitado, e nenhum texto substitui esse processo. Se estes pontos fizeram sentido para você, baixe o roteiro de reflexão para organizar lembranças e perguntas sobre a sua trajetória. É um material para pensar, sem finalidade diagnóstica.

Na segunda parte, falo de projetos que se sucedem, esforço, intensidade, os limites do que o perfil explica e a máscara de quem se diminui para caber.

Atendo adultos com altas habilidades em psicoterapia online.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.

WILLIAMS, C. M. et al. High intelligence is not associated with a greater propensity for mental health disorders. European Psychiatry, Cambridge, v. 66, n. 1, e3, 2023. DOI: https://doi.org/10.1192/j.eurpsy.2022.2343.


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