Kristin Neff é uma das autoras de referência na área de estudos da compaixão e autocompaixão. Neste texto, pretendo esclarecer o que é compaixão (para si e para o outro) e refutar as críticas e obstruções que normalmente aparecem quando começamos a explicar essa nova área de estudos dentro da psicologia.

Definição de Compaixão

Em primeiro lugar, temos que distinguir a compaixão do ato de sentir pena. Compaixão é uma tradução do termo antigo Karuna, que, por sua vez, comporta um sentido muito mais amplo. Em resumo, definimos compaixão como o desejo de aliviar o sofrimento de uma pessoa ou de um ser (um cachorro, por exemplo) a partir da conexão empática que estabelecemos com os outros seres vivos. Reconheço o sofrimento alheio e possuo a vontade de que ele seja superado.

Desta forma, entendemos que a compaixão possui o componente da ligação que todos possuem com todos, a humanidade compartilhada (quando falamos de pessoas) ou a vida (quando falamos de outros seres vivos).

Na compaixão, portanto, vemos que há uma profunda interdependência entre todos nós: incontáveis pessoas vieram antes de nós e, fazendo o melhor que puderam fazer, construíram o mundo em que nascemos, e, igualmente, o que estamos fazendo dia a dia constrói o mundo daqueles que virão depois de nós.

Compaixão e votos

Uma forma simples de ilustrar o sentimento de compaixão é pensar nos votos que fazemos de aniversário. Dizemos: “que você seja feliz”, “desejo tudo de melhor para você hoje e sempre”, “que você tenha muita saúde, paz, segurança”, e assim por diante.

Quando fazemos os votos de aniversário – ou em outras datas comemorativas como Natal e Ano Novo – é frequente que nos sintamos bem só de desejar o bem para aquela pessoa especial.

Didaticamente, fica mais fácil se distinguirmos em um primeiro momento entre empatia, compaixão e altruísmo.

1)  Na empatia nós nos conectamos com os sentimentos (sofrimentos ou felicidades) da outra pessoa ou ser. Nos colocamos no lugar do outro e talvez surjam também sentimentos de sofrimento se a conexão for com um momento complicado.

2)  Se passarmos da empatia para compaixão, sairemos desse sentimento negativo – se for uma conexão com um sentimento ou situação difícil – e passaremos a desejar que tudo fique bem (em paz, em segurança, com felicidade, etc)

3)  No altruísmo, saímos da compaixão e fazemos algo efetivamente para que a situação melhore ou seja sanada.

As diversas pesquisas sobre a importância da compaixão no bem-estar e na felicidade de quem a pratica diariamente mostram que só de desejarmos bons votos para as outras pessoas já ficamos bem. Como nem sempre é o caso ou temos possibilidade de efetivamente fazermos algo (altruísmo) o desejo de melhora (compaixão) já é ajuda e muito.

Superando as objeções e críticas

Em uma de suas palestras, Neff mostra algumas objeções comuns à compaixão e autocompaixão.

1)  Sentir pena

Sentir pena de uma outra pessoa ou estar perto de uma pessoa que busca a pena dos outros (vitimização) realmente não é algo interessante. A pena indica que uma pessoa é inferior de algum modo ou vítima ou coitada. Como vimos, a compaixão – no sentido usado na ciência – não se confunde com sentir pena.

O elemento fundamental nessa distinção é a humanidade compartilhada. Em certos momentos, não se trata de achar “coitado de mim” (por estar doente, ter um problema ou conflito) mas reconhecer que todos passam por circunstâncias que não gostaria de passar (ficar doente, ter um problema ou desarmonia, por exemplo).

Portanto, não se trata de achar que eu sou superior na minha dor e sim, através da compaixão, reconhecer que a minha dor e o meu sofrimento fazem parte da condição humana. Se todos sofremos, posso cuidar de ficar melhor, desejando para mim melhoras (autocompaixão) e desejando melhoras para as outras pessoas e seres (compaixão).

2) Não precisamos nos julgar e criticar para melhorar?

Uma outra objeção a ter autocompaixão e compaixão é a ideia de que nós precisamos julgar – talvez cruelmente – o nosso comportamento e o comportamento dos outros para que as coisas melhorem.

Em um dia ”ruim”, se anotarmos os pensamentos de autocrítica que estamos produzindo, talvez ficaremos assustados como aparecem críticas e julgamentos que são maldosos, depreciativos, odiosos até.

Ora, aqui precisamos fazer uma distinção importante entre críticas que são construtivas (e baseadas em um tom de apoio e carinho) e críticas que são terríveis, negativas, maldosas.

As pesquisas indicam que críticas maldosas, sejam em direção a nós mesmos ou aos outros, paralisam, são destrutivas, ao invés de motivar e serem construtivas. Estas são críticas baseadas no medo de errar, de falhar, de não ser suficiente. Pode até motivar por um pequeno espaço de tempo, mas não são duradoras e não vão, evidentemente, nos fazer feliz porque estaremos sendo motivados não no autocuidado e sim para escapar da autocrítica.

3) Autocompaixão e compaixão não são indulgências, permissividades a tudo?

Muitas pessoas também acreditam que se tratarmos a nós mesmos com mais gentiliza – de maneira semelhante a tratar os outros – poderemos passar a cultivar uma permissividade que é negativa. Se eu olho para mim e procuro me cuidar e me respeitar, posso vir a não fazer o que precisa se feito. Essa é a ideia da autoindulgência.

Por exemplo, estou triste, muito triste, vou me cuidar tomando 4 litros de sorvete. Como quero me cuidar, vou faltar ao serviço, tirar folga dos estudos, etc. Ou seja, será que este tipo de comportamento é compaixão?

No pensamento de Neff, estes comportamentos são comportamentos permissivos, indulgentes. Eles não são compaixão ou autocompaixão porque nestes há a presença de um pensamento que também contempla o longo prazo.

Se eu parar de estudar e trabalhar, se eu comer excessivamente, quais serão as consequências no longo prazo? Nada positivas, certo? Então, se a compaixão visa o desejo de que as coisas melhorem, agora e nos futuro, não faz sentido confundi-la com indulgência, permissividade, um vale tudo e tudo estará bem.

Testando a compaixão

Abaixo, compartilho dois vídeo da Danniela Sopezki, para que você possa também fazer uma prática de compaixão e autocompaixão – conforme fazemos nos Grupos de Mindfulness – e sentir como é:

 

Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Atendimento presencial na Av. Paulista: Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913