Olá amigos!

Tudo bem? Estes dias tenho estudado uma Síndrome que é bastante comum no Japão, chamada Hikikomori, literalmente, Síndrome do Isolamento em Casa, ou seja, a doença da pessoa que não consegue sair de casa. Nos casos extremos, não há contato “presencial” algum com o mundo exterior. O que me chamou a atenção para esta Síndrome, descrita do outro lado do mundo, é que não temos dado muita atenção a este isolamento social que também tem crescido por aqui.

Quantos e quantos jovens não conseguem sair de casa e ficam apenas na internet?

Portanto, neste texto, vou procurar compartilhar o que aprendi com os japoneses sobre este quadro psicológico.

Síndrome do Isolamento em casa

Há um tempo atrás eu já havia escrito sobre solidão aqui no site. Veja o texto – A psicologia da solidão – no qual eu falo sobre o tema, junto da relação com a introversão e extroversão dos tipos psicológicos de Jung.

Estou citando este texto anterior, porque é importante notar que nem sempre querer ficar um pouco sozinho é uma doença. Pelo contrário, para muitas pessoas, o desejo de não ter tanto contato social faz muito bem. Mas o que nós vamos falar hoje é sobre um estado muito mais difícil e sofrido.

O Dr Tamaki Saito cunhou o termo Hikikomori no ano 2000 para descrever as pessoas que se isolam e ficam afastadas totalmente do convívio social lá no Japão. A pessoa se isola de tão forma, que é como se estivesse presa em sua casa. Não tem a liberdade de ir e vir, mas não é uma prisão de verdade. Parece uma escolha da pessoa simplesmente parar de sair. Porém, no fundo, pode também não ser uma escolha consciente, ou seja, a pessoa prefere não sair de casa, mas, em certo sentido, também pode não conseguir sair de casa.

A maioria destes jovens japoneses são muito tímidos, não possuem amigos e possuem relações familiares negativas.

Embora não saiam fisicamente de casa, eles saem através do mundo virtual, da internet e dos jogos online, que passa a ser o seu único contato com o mundo exterior. Para evitar o contato presencial, dormem de dia e ficam acordados à noite.

Embora o comportamento seja típico, cada pessoa com esta Síndrome terá um tipo de personalidade específico. Enquanto alguns são depressivos e mal falam, outros são agressivos e ansiosos. E um traço em comum em todos eles, é a incapacidade de assumir responsabilidades, por exemplo, se comprometer com os estudos se estiver em idade escolar ou encontrar trabalho. Não é raro também o total abandono da higiene pessoal, ficando dias e dias sem tomar banho.

Como disse, esta Síndrome foi percebida primeiro no Japão, pelo Dr. Tamaki Saito, mas com a expansão da internet e com as mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas, vem crescendo em outros países. Por exemplo, os espanhóis também notam entre seus jovens o mesmo tipo de comportamento, mas o descrevem como “Síndrome da Porta Fechada”. Na Inglaterra e Estados Unidos é chamado de “Social withdrawal”, “afastamento social” ou “recolhimento social”. Na França é conhecido como “Síndrome do retraimento social agudo”.

Tipos de Hikikomori

1)  O Pré-Hikikomori ou junhikikomori: Consegue sair de casa algumas vezes na semana, seja para ir à escola ou faculdade, mas tem muito pouco contato social. 

2) O Hikikomori social: não quer estudar ou trabalhar, mas ainda mantém algumas relações sociais.

3) O Tachisukumi-gata: possui uma forte fobia social, sentindo constantemente medo ou paralisação quando em contato com outras pessoas. 

4) O Netogehaijin, que significa zumbi, por aparentar pouca vitalidade.

Lembrando amigos que estes tipos são descrições populares no Japão e não são classificações dos psicólogos ou psiquiatras, ok? Em outro texto, podemos falar mais a respeito das classificações a respeito da fobia social.

No Japão, a pessoa que se isola totalmente em casa (apesar destes tipos) é basicamente alguém que não faz esforço algum para ter contatos sociais, muitas vezes chegando ao extremo de se negar a realizar atividades fundamentais para a sobrevivência. Ou seja, precisam comer e não comem, precisam dormir e não dormem. É frequente casos de Hikikomori por lá em que a pessoa simplesmente para de comer e morre de fome.

Os pais ou responsáveis muitas vezes pensam que o jovem está comendo, mas – como a porta está sempre fechada – e eles devolvem o prato de comida vazio, pressupõe que o filho ou filha está comendo, quando não está.

O importante de notar, nesta Síndrome, é o traço mais comum: o isolamento social extremo. Como dizem os espanhóis, a porta do quarto está sempre fechada. Amigos não visitam a casa, nem há passeios pelo mundo exterior. Muitas vezes não há nem a vontade de se banhar ou se cuidar. O único contato é através da internet, em um mundo fantástico e virtual, em que eles acabam fazendo uso de um avatar, de uma persona, de uma máscara completamente diferente da realidade.

Não há, portanto, vontade alguma de estudar ou trabalhar, não há ambição econômica ou desejo sexual suficiente para encontrar um parceiro ou parceira.

Causas do isolamento

O que mais chama a atenção, quando estudamos esta Síndrome, diz respeito aos motivos do isolamento. Porque alguém decidiria, voluntariamente, trancar-se em um quarto como um prisioneiro?

No momento atual, não há uma única causa como hipótese. Pesquisadores afirmam que o crescimento desta Síndrome advém do surgimento das novas tecnologias, em especial da internet, que provocaria, por sua vez, uma cisão entre o real e o virtual, levando os jovens a se afastar cada vez mais da realidade e a manter toda a sua percepção no universo virtual. Ou seja, ao invés de praticar esportes e brincar com os amigos na rua, cada vez mais se nota que as diversões para crianças e jovens estão em videogames, jogos online, redes sociais, etc – o que explicaria o isolamento social inicial.

Outros pesquisadores pensam que a “culpa” pela Síndrome advém de causas sociais, quer dizer, de uma cultura, de uma sociedade que estimula a competitividade, que é ansiosa pelo sucesso e pelo reconhecimento de conquistas materiais e que rechaça quem não possui a mesma ambição ou não consegue atingir o que seria o esperado para a sua idade e classe social.

E, ainda, outros pesquisadores apontam para causas do próprio indivíduo, como traços de personalidade e genética.

Tratamento

O Tratamento é normalmente adiado pelos pais ou responsáveis por dois motivos. Primeiro, por pensar que não há nada de errado durante muitos anos. Segundo, por pensar que o próprio sujeito vai buscar ajuda ou, então, vai conseguir sair deste quadro sozinho.

Com o tratamento adequado, com psicólogos e psiquiatras, é possível superar a Síndrome do Isolamento. Como gosto de dizer para meus pacientes, é sempre melhor ter a capacidade de fazer cem comportamentos do que apenas três não é mesmo?

Quer dizer, é claro que é possível escolher ter uma vida mais reservada, com poucos amigos, trabalhar pela internet e curtir jogos online. Porém, o problema reside quando a pessoa não consegue fazer outras coisas. Se precisa viajar, não viaja. Se precisa ir até outro canto da cidade, não se sente seguro. Se precisa atender um telefone, tem medo. Se surge uma excelente oportunidade de trabalho, não vai.

Portanto, podemos pensar no tratamento como buscando o resultado de expandir o repertório comportamental da pessoa, para que ela possa fazer mais coisas quando precisar ou desejar, não ficando limitada a pouquíssimos comportamentos.

 

Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - psicologiamsn@gmail.com - Atendimento presencial na Av. Paulista: Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913