Imaginário e Fase do Espelho – Lacan

Neste texto, vamos falar sobre o Imaginário. E, para tanto, é produtivo começarmos pela Fase do Espelho ou Estágio do Espelho – que é a primeira contribuição de Lacan para a teoria psicanalítica, na década de 1930, quando Freud ainda estava vivo.

Mas até onde sei, os dois teóricos nunca se encontraram.

Bem, para começarmos a falar de Imaginário, vamos utilizar a definição do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis, o qual comentarei em seguida:

Vou citar integralmente aqui o pequeno artigo do Vocabulário de Psicanálise, de Laplanche e Pontalis, sobre a Fase do Espelho:

“Segundo J. Lacan, fase da constituição do ser humano que se situa entre os seis e os dezoito meses; a criança, ainda num estado de impotência e de incoordenação motora, antecipa imaginariamente a apreensão e o domínio da sua unidade corporal.

Esta unificação imaginária opera-se por identificação com a imagem do semelhante como forma total; ilustra-se e atualiza-se pela experiência concreta em que a criança percebe a sua própria imagem num espelho.

A fase do espelho constituiria a matriz e o esboço do que seria o ego.

A concepção da fase do espelho é uma das constribuições mais antigas de J. Lacan, por ele apresentada em 1936 no Congresso Internacional de Psicanálise de Marienbad.

Esta concepção apóia-se num certo número de dados experimentais assim agrupados:

1) Dados tirados da psicologia da criança e da psicologia comparada quanto ao comportamento da criança diante da sua imagem ao espelho. Lacan insiste na “…assunção triunfante da imagem como mímica jubilosa que a acompanha e a complacência lúdica no controle da identificação especular.

2) Dados tirados da etologia animal que mostram certos efeitos da maturação e de estruturação biológica operados pela simples percepção visual do semelhante.

O alcance da fase do espelho no homem deve ser ligado, segundo Lacan, à prematuração do nascimento, objetivamente atestada pelo inacabamento anatômico do sistema piramidal, e à incoordenação motora dos primeiros meses.

Do ponto de vista da estrutura do sujeito, a fase do espelho assinalaria um momento fundamental: constituição do primeiro esboço do ego. Com efeito, a criança percebe na imagem do semelhante ou na sua própria imagem especular uma forma (Gestalt) em que antecipa – e dai o seu “júbilo” uma unidade corporal que objetivamente lhe falta e identifica-se com essa imagem.

Esta experiência primordial está na base do caráter imaginário do ego constituído imediatamente como “ego ideal” e “origem das identificações secundárias”.

Vemos que, nesta perspectiva, o sujeito não é redutível ao ego, instância imaginária, dual, voltada à tensão agressiva em que o ego é constituído como um outro, e o outro como alter ego.

Esta concepção poderia ser aproximada dos pontos de vista freudianos sobre a passagem do autoerotismo – anterior à constituição do ego – ao narcisismo propriamente dito, pois aquilo a que Lacan chama fantasia do “corpo fragmentado” corresponde à primeira etapa, e a fase do espelho ao advento do narcisismo primário.

Mas com uma importante ressalva: para Lacan, seria a fase do espelho que faria retroativamente surgir a fantasia do corpo fragmentado. Essa relação dialética observa-se no tratamento psicanalítico: vê-se por vezes aparecer a angústia de fragmentação por perda da identificação narcísica, e vice-versa.

É importante salientar alguns aspectos:

Para a psicanálise a psique não possui um centro. Ela é constituída (seja na primeira tópica do consciente, pré-consciente e inconsciente; ou na segunda do eu, super-eu e isso ou id) pela luta, pelo conflito das pulsões parciais.

Entretanto, na fase do espelho, entre os seis meses aos dezoito meses há a constituição de uma unidade do ego. Pela imagem do outro há a criação de uma imagem do eu. Em outras palavras, há a criação de uma unidade pela imagem. Daí o fato de explicarmos o imaginário, primeiramente pela fase do espelho.

A fase do espelho é uma outra forma de falarmos sobre o narcisismo. Se você não sabe o que é narcisismo, lembre-se do Mito grego do Narciso, aquele que se afogou nas águas do rio, olhando e admirando a própria imagem. Essa é a referência literária que Freud usa para elaborar o termo.

O primeiro texto em que vemos a ideia de narcismo é em uma artigo de Freud de 1914, Introdução ao Narcisismo. Até a sua morte, em 1939, ocorrem diversas mudanças na teoria sobre o narcisismo.

Mas podemos, a grosso modo, definir dois narcisismos: o primário e o secundário. Citando Rodinesco,

“O narcisismo primário é um primeiro estágio, anterior à constituição do ego e portanto auto-erótico, através do qual a criança vê a sua própria pessoa como objeto de um amor exclusivo – um estado que precede a habilidade de se voltar em direção aos objetos externos. Com isso surge a constituição do eu ideal. O narcisismo secundário resulta da transferência para o ego de investimentos em objetos no mundo externo. Ambos os narcisismos parecem ser uma defesa contra impulsos agressivos”.

E porque há o outro? A imagem do espelho é a imagem de um outro, não é mesmo? É um outro que sou eu, mas ainda assim é um outro – apresenta-se fora de mim.

Com isso, explica-se também a questão da identificação que temos com os outros.

Na psicanálise, o ego é criado a partir de um feixe de identificações. Cada traço do ego é remetido à identificação com um outro, ora com a mãe, ora com o pai, ora com o irmão, e com outros outros… Há unidade nisso? Não. A unidade é apenas imaginária. Uma fantasia, um fantasma.

Como nos diz Roudinesco: “O outro é o objeto do desejo que a consciência deseja em uma relação especular negativa que que a permite se reconhecer nele”.

Um exemplo muito interessante – dos problemas que podem surgir das relações de alteridade que são especulares – é o da relação entre irlandeses e ingleses.

Em meu mestrado estudei alguns livros do autor James Joyce, em especial Um retrato do Artista quando jovem e o seu esboço chamado Stephen Hero. Joyce era irlandês e na época de Joyce – que nasceu em 1882 – a Irlanda era uma colônia da Inglaterra. Com isso, havia uma relação imaginária entre os dois povos.

Os ingleses olhavam para os irlandeses como beberrões, preguiçosos, pobres, católicos.

Os irlandeses olhavam para os ingleses como arrogantes, maldosos, protestantes…

Quem tem a verdade? Ninguém…

Na relação imaginária, há uma oposição falsificadora. Note que cada um se define a partir do olhar do outro, a partir do olhar sobre o outro.

Há aqui uma relação de ambivalência, de amor-ódio, uma relação insolúvel.

Este tipo de projeção é muito frequente no consultório e é muito importante que o analista não caia nesta lorota, nesse engodo.

Há a necessidade, na clínica, de passarmos destas relações especulares para o simbólico, para a entrada na cadeia significante – por isso é tão importante ao analista frustrar a demanda inicial, que geralmente se funda em uma relação imaginária.

“Toda demanda é demanda de amor”, nos diz Lacan.

Demanda não é uma palavra muito utilizada em português, no dia-a-dia. Podemos pensar em demanda como um pedido. A queixa inicial do paciente que chega para fazer análise é uma demanda. Ame o meu problema, me ame.

Se o analista cai nesta demanda, ele estabelecerá uma relação imaginária com o paciente, de amor-ódio, ambivalente e equivocada.

Para sairmos de uma relação como a dos irlandeses e ingleses, ou como a relação (imaginária) que há entre homens e mulheres (em feminismos ingênuos) temos que questionar estas posições por elas mesmas.

No caso do feminismo, como fez Julia Kristeva – uma importante psicanalista além de crítica literária – que questionou a própria definição, significante, do que é a palavra homem, do que é a palavra mulher.

Indo para o campo da linguagem, estamos no campo dos jogos significantes, não mais da relação senhor-escravo, espelho meu….

Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Vídeos e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade). E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - psicologiamsn@gmail.com - (12) 3042-0336 - Whatsapp (35) 99167-3191 - Snapchat: psicologiamsn