Breve histórico da Epilepsia

Com base nos historiadores Cantilino e Carvalho (2001), se formos olhar para a história da humanidade, veremos que inicialmente a epilepsia indicava algo como “possessão demoníaca” ou “acúmulo de humores do mal”. Alguns estudiosos tais como Hipócrates (460 a 377 a.C.) e Galeno (131 d.C.), já tinham uma visão de que a epilepsia seria uma doença de origem cerebral. Porém somente no século 18 foi escrito o primeiro tratado sobre a epilepsia e ainda era atribuída a masturbação como a causa da crise.

Chegando no século 19, Kraepelin acreditava que os pacientes epilépticos tinham alterações na personalidade com disposição para psicose. A partir de então surge novos estudiosos e pesquisas a respeito de pacientes epilépticos.

Porém, apesar dessas descobertas, os pacientes continuaram a apresentar suas crises e uma quantidade significativa destes evoluíam com algum tipo de transtorno psiquiátrico. Por essa razão, atualmente vem se desenvolvendo estudos sobre os aspectos neurológicos e psiquiátricos da epilepsia e uma integração teórico-prática entre as duas especialidades.

O que é Epilepsia?

A epilepsia é a doença neurológica mais comum na população em geral. Segundo Ballone (2005) “o termo Epilepsia refere-se a uma condição crônica de ataques periódicos ou repetidos, causados por uma condição fisiopatológica da função cerebral, resultante da descarga espontânea e excessiva de neurônios corticais. Entretanto, não se deve entender a epilepsia como uma doença exclusivamente convulsiva. A convulsão é apenas um dos sintomas da doença, o qual traduz a existência ocasional de uma descarga excessiva e desordenada do tecido nervoso sobre os músculos do organismo. A epilepsia porém, deve ser conceituada atualmente, como uma síndrome com um conjunto de sinais e sintomas decorrentes desta disritmia cerebral paroxística. Nesta síndrome portanto, a convulsão propriamente dita, pode até estar ausente, como se acredita que aconteça na maioria dos pacientes disrítmicos.”

Uma das principais preocupações para os psiquiatras envolvendo essa patologia é a consideração de um diagnóstico de epilepsia em pacientes psiquiátricos, em que 30% a 50% dos epilépticos têm dificuldades psiquiátricas em algum momento durante o curso da doença (Kaplan, 1997).

Em resumo, podemos dizer que a epilepsia seria uma alteração temporária do funcionamento do cérebro (não obtidos através de droga, febre ou distúrbios metabólicos), que produz então manifestações motoras, sensitivas, sensoriais e psíquicas/neurovegetativas (disritimia cerebral paroxística). Essa alteração pode durar alguns segundos ou minutos, e com isso o cérebro emite sinais incorretos. Podendo ser:

Parcial: são convulsões caracterizadas por descargas focais, originando-se de uma porção de um hemisfério cerebral , com rebaixamento da consciência e Generalizada: atingem os dois hemisférios cerebrais.

 De acordo com Shorvon (2011) existem quatro tipos de definição para Epilepsia:

1. Epilepsia idiopática – definida como uma epilepsia de origem predominante ou presumivelmente genética e nas quais não há grande anomalia neuroanatómica ou neuropatológica. São aqui incluídas as epilepsias com hereditariedade presumidamente multigénica ou complexa, ainda que, atualmente, as bases genéticas não sejam elucidativas.

2. Epilepsia sintomática – definida como uma epilepsia de causa adquirida ou genética, associada a grandes anomalias anatómicas ou patológicas e/ou factos clínicos indicadores de doença ou condição subjacentes. Incluímos, por conseguinte, nesta categoria os distúrbios do desenvolvimento e congénitos quando estes estão associados a alterações patológicas, tenham origem genética ou adquirida (ou mesmo criptogénica).

3. Epilepsia provocada – definida como uma epilepsia na qual um fator ambiental ou sistémico específico é a causa predominante das crises e em que não há grandes anomalias neuroanatómicas ou neuropatológicas. Algumas “epilepsias provocadas” terão uma base genética e outras uma base adquirida mas, na maioria, não pode ser identificada uma causa inata. As epilepsias reflexas estão incluídas nesta categoria (sendo usualmente genéticas) assim como as epilepsias com um notório precipitante de crises.

4. Epilepsia criptogénica – definida como uma epilepsia de natureza presumidamente sintomática na qual a causa não tenha sido identificada. O número de tais casos está a diminuir mas, atualmente, é ainda uma categoria importante, correspondendo a, pelo menos, 40% dos casos de epilepsia com início no adulto.

 Classificação e Diagnóstico da Epilepsia

Devemos considerar a epilepsia sob dois pontos de vista: primeiramente como um conjunto sindrômico de sinais e sintomas psíquicos e, em segundo, como possibilidade de manifestação da potencialidade epiléptica sob a forma de crises clínicas definidas, desde a clássica convulsão generalizada até pequenos sintomas sensitivos, cognitivos ou psicomotores.

No caso de ser abordado o conjunto sindrômico do paciente disrítmico há que se compreender o epiléptico, com sua maneira de ser e sua personalidade. No caso da caracterização clínica das crises procura-se compreender a epilepsia, com seu quadro clínico, curso e evolução. Interessa à psiquiatria a abordagem do epiléptico em geral e das epilepsias com peculiar expressão psíquica. As demais formas são melhor estudadas pela neurologia.

As epilepsias podem ser Parciais ou Generalizadas. As epilepsias ditas Parciais são aquelas que comprometem apenas um dos hemisférios cerebrais. Entre elas, serão consideradas Parciais Simples sempre que não houver comprometimento da consciência e, ao contrário, Parciais Complexas havendo tal comprometimento. São Generalizadas as epilepsias que afetam ambos hemisférios cerebrais e, tal como as parciais, podem ser Convulsivas e não-Convulsivas.

I – EPILEPSIA PARCIAL
Simples
Complexa
II – EPILEPSIA GENERALIZADA
Convulsiva
Não Convulsiva

Entre as crises epilépticas interessa particularmente à psiquiatria, a Crise Parcial com Sintomatologia Psíquica. Estas crises podem se manifestar em forma de distúrbios paroxísticos da linguagem com crises de afasia transitórias, podem apresentar lapsos paroxísticos de memória, sensações de “dêjà vu”. Não raras vezes há queixas de distorções na percepção dos objetos, ora percebidos como aumentados ora como diminuídos, disformes, mudados de posição, etc.

Outras peculiaridades podem estar presentes nas Crises Parciais com Sintomatologia Psíquica, como por exemplo, as modificações paroxísticas do humor e do afeto, sensações de prazer e desprazer, episódios súbitos e imotivados de depressão e raiva, de medo e terror. O início e o término destas manifestações é, via de regra, abrupto e, freqüentemente, existem outros sinais sugestivos de disritmia concomitantes.

É de primordial importância ao clínico ter noção dessas alterações sensoperceptivas e emocionais conseqüentes à epilepsia. Estas são situações que despertam, na maioria dos psiquiatras, uma grande inclinação à utilização de antipsicóticos e/ou antidepressivos mas que, não obstante, respondem muito melhor ao uso de anticonvulsivantes, notadamente a carbamazepina.

Quando estas Crises Parciais são Complexas as alterações da consciência podem dar-se sob a forma de estreitamento, denominado Estado Crepuscular, frequentemente de média ou longa duração. Nestes Estados Crepusculares é comum certo automatismo motor, quase sempre com atitudes sem objetivo prático e expressão facial sugestiva de medo ou agressividade. Havendo agressividade extremada durante o Estado Crepuscular, podemos falar em Furor Epiléptico, distúrbio responsável por graves danos sociais e familiares. Passado o episódio, normalmente o paciente não guarda uma lembrança nítida do ocorrido.

Psiquiatricamente, entretanto, interessa-nos os indivíduos não apenas com crises eletrencefalograficamente ou fisiopatologicamente delimitadas mas, sobretudo, os portadores de um conjunto mais abrangente de sinais e sintomas capazes de conferir-lhes uma maneira peculiar de contatar a realidade e de viver. De acordo com este conceito, muitos autores têm utilizado o termo Personalidade Epiléptica (9,10), Epileptiforme ou Epileptóide para designar esta constelação de características psíquicas associadas à atividade disrítmica do Sistema Nervoso Central, notadamente do lobo temporal.

O papel do psicólogo

É fundamental que as pessoas saibam o que é epilepsia, quais são suas implicações práticas, para que o paciente e sua família deixem de ser vítimas de preconceito e estigma na comunidade. Por isso, este trabalho tem como objetivo mostrar a importância do trabalho em grupos na epilepsia, fornecendo orientações básicas de como realizá-los. O trabalho com grupos facilita as relações interpessoais e enfoca o tratamento de problemas e dificuldades, especialmente em doenças crônicas. Do ponto de vista psicológico, proporciona oportunidade para troca de experiências e vivências, além de possibilitar a interação entre pacientes e profissionais da saúde. Os grupos têm por objetivo auxiliar no conhecimento de informações, discutir os medos, ansiedade e confusões a respeito da epilepsia, sendo oportunidade para compartilhar ideias, expressar sentimentos e trocar experiências com outras pessoas que vivem situações similares. Além disso, as pessoas podem aumentar seus conhecimentos, discutir mágoas e desconfortos relacionados à epilepsia Pacientes com epilepsia apresentam isolamento social, dificuldade nos relacionamentos sociais, no trabalho, na escola, no lazer e até nas atividades de vida diária. Por isso, costuma-se dizer que a epilepsia é uma condição que afeta o bem-estar biopsicossocial, ou seja, afeta a vida do paciente como um todo.

Referências Bibliográficas

Ballone GJ – Epilepsia, Agressividade e Personalidade – in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005.

CANTILINO, A.; CARVALHO, J.A. Psicoses relacionadas à epilepsia: um estudo teórico. Revista Neurobiologia 64 (3-4): 109-16, 2001.

CID-10. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Artes Médicas, Porto Alegre, 1993.

DSM-IV-TR. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4 ed. Artes Médicas, Porto Alegre, 2002.

HARRISON, J. Medicina Interna. 13 ed. Mc Graw Hill Internacional, Philadelphia, 1994.

JASPERS, K. Psicopatologia Geral. Livraria Atheneu, 1973.

KAPLAN, I.; SANDOCK, B.J. Compêndio de Psiquiatria. Artes Médicas, Porto Alegre, 1997.

SCHNEIDER, K. Psicopatologia Clínica. 3 ed. Mestre Jou, São Paulo, 1978.

Simon D. Shorvon. Classificação etiológica da epilepsia. Epilepsia, 52(6):1052–1057, 2011. UCL Institute of Neurology, University College London, Queen Square, London, United Kingdom. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1528-1167.2011.03041.x/pdf

Psicólogo (CRP 06/119079), Especialista em Psicanálise, Pós-graduado em RH, Palestrante e Consultor de Empresas. Visite meu site - Superando Desafios