Em nossas vidas, com o passar dos anos, vamos construindo um personagem que parece tão sólido como um personagem conhecido nas artes mas em última instância é também uma criação

Para quem, como eu, leu já muita literatura (meu mestrado foi em Letras) terá entrado tanto em um romance que passa a esquecer de si. É muito comum na literatura, assim como no cinema, que nos identifiquemos com um personagem, tanto, que a realidade imediata é deixada de lado. Esta é uma experiência fascinante e que, atualmente, sinto falto. Afinal, com a falta de tempo não tenho lido mais esse tipo de livro.

A minha dissertação de mestrado foi sobre o processo de criação de um personagem. Como a criação de um personagem gera uma identidade. Muitas vezes essa identidade é semelhante à identidade do artista. Também dá para analisar por outro lado: em nossas vidas, com o passar dos anos, vamos construindo um personagem que parece tão sólido como um personagem conhecido nas artes mas em última instância é também uma criação. Em outras palavras, o personagem que acreditamos que somos é uma construção. Poderia ser outro.

Por exemplo, se eu não tivesse feito a faculdade de psicologia, não diria como digo que sou psicólogo. Ser psicólogo faz parte da construção de quem eu sou. Apesar de ser forte isso em mim hoje em dia, poderia não ter sido construída dessa maneira a minha identidade e – ainda que não seja o meu caso – posso se quiser abandonar essa construção e ir ser gastrônomo, dono de loja, professor de inglês ou qualquer outra profissão.

Isso é bem claro quando se trata do aspecto profissional de nossas vidas. Embora seja uma faceta muito importante e que tende a permanecer no longo prazo, existe a possibilidade de mudança. O que não vemos com muita clareza é que podemos mudar igualmente outros aspectos de quem achamos que somos.

Para responder à pergunta quem sou eu, nós contamos uma história. (Contei uma parte da minha aqui já escrevendo este texto: “sou psicólogo, fiz mestrado em Letras, gosto de ler literatura, tenho pensado em questões de identidade”…). Outra pergunta que ajuda na criação de identidades é a pergunta: “como você é” ou “como eu sou?”

As pessoas dizem sobre mim que eu sou uma pessoa calma. Esse olhar externo sobre quem eu sou também constitui a minha identidade. Posso vir a concordar com essa opinião dos outros sobre mim e cristalizar esse pensamento. “Eu sou uma pessoa calma”.

Todo personagem e toda identidade possui um limite, uma circunscrição que se baseia na ideia de coerência. Um personagem por demais contraditório é sentido por nós como confuso. Se eu sou calmo, excluo a possibilidade de não ser calmo. E é sobre esse limite que gostaria de falar.

Os limites de quem você acha que é

Nada no universo diz que eu tenho que ser calmo. Não existe uma medida de temperamento, um teste psicobiológico, nem nada que afirme que eu tenho que ser assim ou assado.

Ora, se isso é verdade, porque tenho que me limitar a ser de um jeito só? Porque não posso ser calmo e bravo? Psicólogo e formado em Letras e formado em Ciência da Religião e o que eu quiser?

A pergunta é: qual é o limite profissional e pessoal que você está se auto-inflingindo?

Duas técnicas para você se abrir à novas criações

Na psicologia, conheço duas técnicas excelentes para que você possa se abrir para criar e explorar novas possibilidades de ser: a Psicologia Analítica de Jung e o Psicodrama.

Na Psicologia Analítica, Jung criou o conceito de imaginação ativa. Internamente, você começa a se relacionar com personagens. O processo pode ter início com você enviando uma carta para uma pessoa que não existe. Digamos, um homem ou uma mulher. Você imagina características dessa pessoa e escreve livremente. Em seguida ou logo mais você procura escrever como seria a resposta à sua carta. Como seria escrever uma carta para você mesmo tendo outro autor como base?

Essa é apenas uma das ideias. Você pode visualizar cenas. Pegar trechos de sonhos e continuar a história. Você pode deixar que o seu inconsciente produza o personagem e ir se conectando com o que for surgindo e criando ativamente também a partir da sua imaginação.

O processo é evidentemente facilitado se você o fizer com um psicólogo ou psicóloga que se especializou em Jung.

Uma segunda possibilidade é o psicodrama. No psicodrama você já vivencia um novo personagem ou uma cena (passado, presente ou futuro) que você deseja, cria, elabora e interage com uma ou mais pessoas. Ou seja, no psicodrama há a criação espontânea de interações, mas, ao contrário da perspectiva junguiana, a vivência é realizada externamente.

Um exemplo

Antes falei que “sou calmo”. Digamos que eu tenha criado a concepção de que “eu sou desorganizado” ou “eu sou indisciplinado”. (Você coloque aqui uma característica que você gostaria de mudar em você).

Se tais ideias sobre mim foram criadas, elas podem ser recriadas. Posso passar a pensar “eu sou uma pessoa organizada” ou “eu sou disciplinado”. O problema é que, ao falar isso, se eu acho que eu sou desorganizado ou indisciplinado parecerá um conflito, uma incoerência, uma inverdade.

Então, eu crio um personagem com um nome X. Esse personagem X conterá a característica que eu quero. E então vou brincando com outras características que gostaria que esse personagem tivesse. Depois que tiver criado, passo a vestir a máscara desse personagem.

Se for mais extrovertido, faço como no psicodrama (vou em um teatro e enceno o personagem com outras pessoas). Se for mais introvertido, vivencio esse personagem em meu quarto. Ou como um “amigo imaginário”. Afinal, não necessariamente preciso deixar de ser o meu personagem nessa brincadeira.

Do jeito que for estarei brincando (brincar e atuar são a mesma palavra em inglês e alemão) e me aproximando de uma característica que desejo desenvolver.

Se eu quiser ser uma pessoa mais alegre, posso trabalhar centenas de técnicas de visualização, de lembrança de dias bons, etc ou posso mudar isso direto no corpo. Por exemplo, como um personagem alegre é?

Imaginando aqui rapidamente, acredito que um personagem alegre vai sorrir o tempo todo. Portanto, se eu sorrir direto pelos próximos 10 minutos sem parar estarei me aproximando do personagem alegre que estou construindo.

(No teatro, na construção de um personagem, pequenos trejeitos, tom de voz, postura corporal, etc fixam o personagem no ator).

Conclusão

Neste texto, procurei mostrar como a identidade que construímos é mais fluída do que tendemos a acreditar. Se a identidade é flexível, nada impede que possamos brincar mais de ser. Nessa brincadeira de ser outros personagens (mais internamente na psicologia analítica e mais externamente no psicodrama) nos abrimos a novas e inesperadas possibilidades de autodesenvolvimento.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Atendimento presencial na Av. Paulista: Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913