Marshal Rosenberg, que elaborou as bases das Comunicação Não-Violenta ou Comunicação Compassiva, explicou certa vez em uma entrevista que o surgimento da Comunicação Violenta provavelmente teve início há cerca de 8 mil anos, quando certos grupos de pessoas passaram a dominar outros, utilizando uma série de táticas, entre elas uma linguagem de dominação.

Este início da Comunicação Violenta, embora seja uma hipótese plausível, não interessa tanto quanto saber que a violência na comunicação rompe o estado de compaixão natural do ser humano. E que a violência cria separação, cria divisão entre grupos de pessoas (supostamente superiores, enquanto outras são inferiores) ou até uma cisão interna em cada um de nós, em que valorizamos certas necessidades e desvalorizamos outras.

Entendendo os julgamentos

A palavra julgamento traz à nossa mente o cenário de um tribunal, de um juiz, de alguém sendo julgado. Culturalmente, aprendemos a fazer julgamentos desde a primeira infância. Lembro por exemplo de ter aprendido que o nosso país era atrasado, terceiro mundo. De ver certas pessoas avaliadas como melhores por ter mais dinheiro ou elogiadas por serem brancas ou terem cabelo liso ou olhos claros.

Rosenberg cita que no trânsito é comum xingar o motorista como “imbecil”, “estúpido”, “idiota”. Depois, estudando psicologia, ele aprendeu a classifica-los como “psicóticos”, “psicopatas”, etc.

Tudo isso são julgamentos: isto é melhor do que aquilo. Isto é superior e isto é inferior. Isto é bom e isto é mal. Nos julgamentos, “nossa atenção está focada em classificar, analisar, e determinar níveis de erro (wrongness) em vez de conectar com o que nós ou os outros queremos e não estamos obtendo” (Rosenberg).

Veja aqui o conceito de Necessidades Humanas Universais

Deixando os julgamentos de lado

Se pararmos por alguns momentos e retirarmos tais julgamentos, como fica a nossa experiência? Se por um dia inteiro, deixarmos de ver um país como avançado e outro como atrasado, se não mais avaliarmos essa pessoa como bonita e aquela como feia… o que você acha? Estaremos mais próximos de nos aproximar das pessoas ou nos afastar?

E se fizermos o mesmo exercício conosco? Se eu parar de criar e manter julgamentos sobre mim, sobre minha aparência, meu jeito de ser, minhas habilidades, meus comportamentos como isso ou aquilo, certo ou errado, melhor ou pior, adequado ou inadequado… o que você acha? Não poderei me aproximar mais de aspectos de mim mesmo que estou afastando, recalcando, lutando contra?

Acredito que você concordará que sim. Ao retirarmos os julgamentos, abrimos espaço para uma maior proximidade, já que é bem claro que os julgamentos criam distancia, afastam, excluem, limitam.

Se paro por um dia de xingar o motorista que entrou na minha frente como “imbecil” e reconheço que ele tem uma necessidade muito parecida com a minha (de chegar em casa) não será muito mais fácil criar conexão?

Se eu vou atender uma pessoa com um diagnóstico bastante grave, não terei muito mais condições de me aproximar deste paciente se simplesmente abandonar este rótulo e me ligar à história de sofrimento, vulnerabilidade, sentimento desse ser humano tão parecido comigo?

Mas julgamentos não são necessários?

O não-julgamento é também um componente muito importante nas práticas de Mindfulness. De fato, a própria definição de Mindfulness de Kabat-Zinn inclui esta ideia: “Mindfulness means paying attention, on purpose, in the present moment, and non-judgmentally”, ou seja, “Mindfulness significa prestar atenção, de propósito, no momento presente, sem julgamento”.

Uma das formas que temos para explicar esse não-julgamento ao momento presente nas práticas de Mindfulness é que o não-julgamento é condizente com curiosidade, com abertura, com aceitação. Julgar na maioria das vezes não tem maior utilidade do que nos fechar com ideias de que já sabemos ou conhecemos (não-curiosidade), em não-aceitar o que é, com uma atitude crítica, aversiva, de desprezo talvez.

É importante julgar em certos momentos (e não paramos de julgar, essa frase “é importante”… comporta em si um julgamento), como quando precisamos julgar se uma comida na geladeira está boa para consumo ou não, se um dor no joelho é grave ou não, se o melhor caminho é para esquerda ou para direita.

Não paramos de julgar porque o julgamento possui valor de sobrevivência em muitos casos. Porém, nas relações com outras pessoas e conosco, os julgamentos quase que sempre atrapalham.

Sabe o casal que fica uma noite inteira discutindo quem está certo e quem está errado? O critério nessa conversa nada agradável é o erro ou o acerto. Não se nota ali a tentativa de criar mais conexão e mais proximidade. E se uma relação é criar proximidade com o outro, qual a importância de julgar quem está certo se fazer isso vai desconectar?

Julgamentos morais

Julgamentos morais, julgamentos éticos também são defendidos como indispensáveis. Este comportamento é moralmente válido. Este não. Este comportamento está dentro da ética. Este não. São julgamentos. A questão é: tais julgamentos excluem? Com qual finalidade?

Quando falamos deste tipo de julgamento, precisamos fazer a distinção entre ter a habilidade de distinguir o que vai servir à vida, o que vai ser saudável (agora e no longo prazo) do que é um julgamento de menosprezo, de exclusão, de “eu sou melhor do que você por não fazer isso”.

Por exemplo, se eu começo a estudar e me aprofundar na Comunicação Não-Violenta posso vir a criar julgamentos morais do que é CNV e do que não é CNV. Distinguir comunicações violentas de comunicações não-violentas será relevante para a minha aprendizagem e prática. Porém se no meio desse distinguir houver não-compaixão comigo e com as pessoas ao redor, não estarei praticando CNV.

Em outras palavras, eu continuo distinguindo que esse feijão está estragado, que não é legal esquecer comida e desperdiçar, que fumar vai fazer mal para minha saúde, que xingar o sujeito no trânsito vai me estressar, causar brigas, etc. Reconheço que certas coisas são melhores que outras, que existem causas e condições. A diferença é que os julgamentos param ai. Não servem para me fazer sentir superior ou inferior.

Ou seja, quando os julgamentos me afastam dos outros, retiram a minha capacidade de compaixão, quando criam cisões internas e retiram minha autocompaixão eu os abandono. Os julgamentos dessa forma são alienantes, são violentos.

Reconhecendo o que há por trás dos julgamentos

Com esta compreensão, podemos passar para o passo seguinte, que é reconhecer que por trás dos julgamentos, até os mais ofensivos, existe uma necessidade humana compartilhada por todos. Se eu consigo reconhecer a necessidade, terei atingido o fundamental para criar a ponte com o outro e comigo.

Se eu estou escrevendo este texto me julgando: “não está bom, não vai fica bom, as pessoas não vão gostar, vão criticar”, eu estou julgando o meu comportamento de maneira violenta. Não falta muito para dizer “que burro, dá zero pra ele”.

Qual é o sentido destes julgamentos, o que eles visam? Qual necessidade procuram suprir?

Olhando a lista de Necessidades Humanas Universais, reconheço que estes julgamentos procuram a aceitação (de vocês), também há a busca pela ordem (de ideias) e compreensão (quero compreender a CNV e quero que vocês compreendam o que estou compartilhando). Talvez também haja a necessidade de segurança (gostaria de dizer o que estou dizendo em um ambiente seguro, livre de julgamentos depreciativos).

Portanto, todos os julgamentos que poderia estar fazendo “não está bom, não vai fica bom, as pessoas não vão gostar, vão criticar” possuem a lógica de estarem à serviço de certas necessidades. Na medida em que consigo traduzir tais julgamentos nas minhas necessidades posso facilmente abrir mão de julgar.

Igualmente, se julgo o motorista como “estúpido”, reconheço a minha necessidade de segurança e posso imaginar que a dela possa ser conforto (chegar logo em casa).

Se ouço uma pessoa dizer que o Brasil é um país atrasado, talvez possa traduzir como a necessidade de autonomia (não depender de outros países ou ser subjugado por políticas externas), talvez valor próprio (um país avançado é aquele que se valoriza, no qual as pessoas são patrióticas) ou talvez um país onde haja honestidade na classe política e na sociedade.

Conclusão

Neste texto, procurei mostrar como os julgamentos geralmente representam formas violentas de comunicação e como com a CNV ajuda a fazer o exercício de traduzir os julgamentos em necessidades.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade), fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online e Orientação Profissional Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - Atendimento presencial na Av. Paulista: Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913