Este texto é continuação do texto – A relação teórica e pessoal entre Freud e Jung

2) Os primeiros contatos

A correspondência tem início em abril de 1906, quando Jung envia a Freud um livro seu recém-publicado, Estudos Diagnósticos de Associações. Neste, encontra-se diversas citações à Interpretação dos Sonhos. Após receber o livro, Freud envia uma carta a Jung em 11 de abril de 1906, agradecendo o envio e dizendo que já o tinha comprado. Inicia-se então um longo tempo de trocas de correspondências, inicialmente formais, passando gradativamente a cartas mais amistosas e de confiança. Em algumas delas, Jung conta seus sonhos e Freud os interpreta.

Um ano após a primeira carta, em fevereiro de 1907, à convite de Freud, Jung viaja de Zurique para Viena, na Áustria. No primeiro contato presencial, eles conversam sem interrupção durante 13 horas. Em sua autobiografia, Jung diz o que sentiu do pai da psicanálise: “Eu o achei extraordinariamente inteligente, penetrante, notável sob todos os pontos de vista” (JUNG, 2006, p. 184). Tem início então um relacionamento de proximidade e os dois pesquisadores se tornam íntimos. Freud, por ser de uma geração anterior, por vezes considerava Jung seu príncipe herdeiro, aquele que iria continuar a sua obra depois de sua morte. Jung em alguns textos considerava Freud um gênio, muitas vezes incompreendido e injustamente criticado.

3) O rompimento

Este período de forte contato vai de 1907 até o começo do rompimento em 1912, com a publicação do último capítulo do livro Símbolos da Transformação da Libido, intitulado “O Sacrifício”. Neste, Jung discorda abertamente da concepção de libido de Freud, que, naquele momento, possuía ênfase na sexualidade. Para Jung, a libido ou energia psíquica era mais ampla, englobando não só a sexualidade como outras áreas importantes da vida psíquica, como o poder, a alimentação, a espiritualidade, etc.  Após 1912, a relação esfria, mas Jung mantém a Presidência da Associação Psicanalítica Internacional até maio de 1914. Os momentos antes deste rompimento definitivo são sentidos como emocionalmente difíceis (não só para Jung – que angustia-se com a publicação do último capítulo do livro como também para Freud, que em presença de Jung, desmaia duas vezes). Após 1914, há apenas uma carta trocada entre os dois teóricos, quando, em 1923, Jung encaminha um paciente que sofria de neurose obsessiva, para ser tratado por Freud.

Antes disso, a dissidência de Alfred Adler com a psicanálise de Freud em 1910 já apontava para Jung a possibilidade de também romper com Freud. Tendo tido sempre desde o início uma certa relutância em aceitar totalmente os pontos de vista de Freud, Jung assumiu que não conhecia tanto quanto Freud e que deveria adquirir mais experiência, antes de poder manter um ponto de vista próprio sobre as doenças mentais, especialmente as neuroses, e sobre o psiquismo humano em geral. Como Adler rompe as relações com Freud um pouco antes, Jung percebe que um mesmo caso pode ser visto através de dois ângulos: sob o ponto de vista de Freud (sexualidade) e sob o ponto de vista de Adler (poder). Adler insiste que a principal questão que o psicanalista deve lidar não é o complexo de Édipo, mas o complexo de inferioridade, no qual os sentimentos infantis de ser inferior – física e psiquicamente – são contrabalanceados com a vontade de poder, o desejo de ser superior aos demais.

Jung percebe que um mesmo caso poderia ser analisado e ter bons resultados se fosse interpretado sob o ponto de vista de Freud ou de Adler. Surge então uma questão que será recorrente em sua obra: a questão dos tipos psicológicos. Pois, não somente cada paciente possui um tipo psicológico – como Freud e Adler são representantes de tipos psicológicos totalmente opostos, ou que, no mínimo, não podem ser explicados pelos mesmos princípios. O segundo grande livro de Jung após o rompimento, Tipos Psicológicos (1920), procura responder à problemática dos diferentes tipos de personalidade e é seu livro mais conhecido e vendido. Nele, há a definição de termos que serão conhecidos por todos como introversão e extroversão, além dos tipos pensamento, sentimento, sensação e intuição.

Importante notar que Freud permitia que outros psicanalistas desenvolvessem novos conceitos, desde que não fossem contra às suas ideias principais. As ideias de Adler, bem como as ideias de Jung, tocam em pontos centrais da teoria e, portanto, não poderiam ser incorporadas dentro da psicanalise, assim como queria Freud.

Continuação – Parte 3: Freud e Jung – O rompimento da relação teórica

Felipe Luis Melo de Souza é graduado em Psicologia pela Universidade Federal de São João del Rey (2006) e Mestre em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela mesma instituição. Atualmente, cursa Doutorado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora, cuja tese versa sobre O Livro Vermelho de Jung.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Vídeos e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Coaching Online via Skype, Relacionamentos ou Carreira (faculdade). E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! Email - [email protected] - (12) 3042-0336 - Whatsapp (35) 99167-3191 - Snapchat: psicologiamsn